15/10/2014


LÍNGUA NOS DENTES


O guri estava sempre na calçada em frente ao nosso prédio. Minha mãe entrava ou saía, sozinha ou com os filhos – eu e meu irmão –, e ele fazia plantão. Pela manhã, à tarde e até certa hora da noite, perambulava pela quadra, brincava solitário com algum carrinho de plástico esquecido ou simplesmente chutava pedregulhos de um lado a outro da rua.

Regulava em idade conosco, devia ter uns oito ou nove anos, mas era mais magro e franzino, queimado de sol, cabelos sem corte. Reparávamos no short desbotado e na camiseta listrada com alguns furos, usados diuturnamente. Muito simpático, sorria sempre, porém, nunca dizia nada. "Não tens mãe? Não tens família?", mamãe perguntava e ele não respondia.

Quando íamos à padaria, voltávamos com alguns pães a mais, às vezes com um sonho ou bolo. Nos revezávamos para estender o embrulho até que seus dedinhos de unhas sujas agarrassem o presente com firmeza. Mostrava os dentes e meneava a cabeça, sem dizer palavra. "Acho que ele é mudo", eu arriscava. E minha mãe me mandava calar a boca.

Na semana em que o general Figueiredo visitava a cidade, o guri sumiu por uns dias. Isso era novembro de 1979. Havia tropas e policiais à beça nas ruas, estudantes em marcha e um clima de iminente revolução. Achamos que poderia ter sido levado para algum abrigo ou que talvez tivesse um lar como o nosso, com mãe, irmãos, comida farta e boas roupas.

Depois reapareceu. Quando saí do prédio para comprar um cachorro-quente na praça, cruzei com ele. Comi o meu ao lado do carrinho, numa esquina próxima, e pedi outro para viagem. Também separamos as roupas que não usávamos mais e as repassamos ao moleque. Na manhã seguinte, já se apresentava com calção menos puído e camiseta sem rasgos.

Em conferência, no quarto do meu irmão menor, ficou decidido que convidaríamos o mascote para subir e tomar um café conosco, à mesa, como se fizesse parte da família. Minha mãe voltava do supermercado e fez o alerta: "Amanhã, às cinco da tarde, venho te buscar pra tomar um café lá em cima com a gente". Ele sorriu de orelha a orelha, mudo como sempre.

No fim do dia seguinte, o piá estava sentado nos degraus da portaria. Banho tomado, cabelos penteados, calça jeans e uma camisa quase nova. Ao lado dele, mais quatro crianças, de idades e cores variadas, todas igualmente arrumadinhas, prontas para fazer uma refeição em nossa casa. "Eu convidei só tu, seu linguarudo!", foi como mamãe o dispensou.

Tivemos que chamar a polícia a certa altura. Aquela pequena gangue de esfomeados passou a atirar pedras nas janelas do apartamento, que não ficava num andar alto. Ainda rondaram a vizinhança por um tempo, até sumirem de vez, o guri entre eles. Nós também acabamos mudando de bairro. E nunca mais oferecemos café a nenhum desconhecido.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 00h07
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Escritor e filósofo
contemporâneo.

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