14/09/2014


TRÊS CHEGADAS


Vinha no avião pensando sobre a chegada. Deixara Salvador sem remorso, disposta a mudar de vida, de bairro, de cidade, de estado. E contava apenas com o homem que a esperava em Curitiba. Estaria mesmo esperando? Duvidou por um instante, ainda que não pudesse fazer mais nada. Pedira demissão do emprego, doara algumas roupas, ofendera pela última vez cada um dos muitos parentes dos quais não gostava e despedira-se definitivamente de alguns poucos que não desgostava totalmente. Agora, passava ilesa por uma turbulência leve, enquanto catava os farelos no fundo do saco de batatinhas fritas oferecido pela companhia aérea.

Recolheu a bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Abriu a bolsa e ligou o celular. Distraiu-se verificando se havia algum recado na caixa de mensagens e tropeçou na barra da própria saia. Tombou de joelhos, chocando o rosto contra a catraca de controle de saída. Um baque agudo, dolorido. Não imaginava de onde vinha o sangue que lhe escorria pelo nariz e não tinha certeza se os dois dentes caídos no piso eram seus ou se já estavam ali antes. Perdeu a consciência. E quando voltou a si, viu-se amarrada a uma maca, que deslizava pelo saguão na direção da saída de emergência, guiada por quatro socorristas uniformizados. Continuava tonta, a ponto de esquecer onde estava e o que viera fazer naquele lugar. O homem permanecia na sala de espera, conforme combinado. Depois de meia hora, entretando, concluiu que ela não embarcara na capital baiana, que desistira da aventura sem ao menos tê-lo conhecido. Partiu desolado.

Mentira.

Nem pensou na bagagem, uma mala média somente, que passeava solitária pela esteira. Esgueirou-se por uma saída lateral, a procura de uma passagem alternativa ao portão de desembarque. Queria ver com que expressão ele a esperava. Aliás, queria ver as feições do homem ao vivo, pois conheciam-se apenas por fotografias. Em meio às suas divagações, perdeu-se no labirinto de corredores. Não fazia ideia de como fora desembocar no estacionamento, pouco iluminado àquela hora da noite. Tentou voltar pelo mesmo caminho, mas foi abordada por dois estranhos. Um deles apontou-lhe uma arma, enquanto o outro já a asfixiava com um lenço embebido em clorofórmio. Inconsciente, foi arrastada e jogada no porta-malas de um carro. O homem com o qual pretendia se encontrar permanecia na sala de espera. Depois de trinta minutos, porém, desistiu de aguardar. Concluiu que ela optara por não embarcar. E nunca mais soube de seu paradeiro.

Mentira.

Recolheu sua bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Nem cogitou abrir a bolsa e tirar o celular do modo "avião". Queria apenas que ele a estivesse esperando, talvez com um buquê de flores-do-campo nas mãos, para marcar seu renascimento em terras paranaenses. Olhou de um lado e outro do saguão, até reconhecer seu homem, exatamente como aquele que aparecia nas fotos trocadas ao longo de meses. Não havia flores, mas havia um sorriso em seu rosto, e isso bastou para ela. Quando pararam frente a frente, foi ele que não se conteve:

– Caralhos me mordam! Você é muito mais bonita pessoalmente.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 18h35
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07/09/2014


A PROCURA


Escavávamos animadamente o chão em busca de trufas. Apesar de nunca termos visto uma de perto, sabíamos que aquele era o lugar indicado pelo apresentador de TV, no documentário ao qual assistíramos ontem à noite. Em nosso pequeno grupo, todos se animaram quando ouviram em alto e bom som o nome do vilarejo. Nas colinas arredondadas de Formosa, havia trufas. Não as caríssimas trufas brancas, nada disso, somente trufas negras, mas havia e pronto.

Não estava frio para a época do ano. Da minha testa brotavam algumas gotas de suor, por causa do esforço. Os outros esbravejavam cada vez que faziam mais um buraco inútil. Procurávamos uma massa disforme, localizada entre vinte e quarenta centímetros de profundidade no solo úmido, de odor característico e gosto desconhecido para nós. Ninguém ainda tirara a sorte grande, e talvez, justamente por isso, não queríamos desistir. Era divertido, acima de tudo.

Passadas algumas horas, sentei-me a uma pedra para comer azedinhas. Era tudo que a terra tinha me dado até ali. Semicerrando os olhos, notei que, ao longe, um homem vestido de branco, franzino, consideravelmente idoso, acompanhava nossa busca sem lógica. Não era dali nem da cidade vizinha, certamente, senão eu o teria reconhecido. Quando percebeu que fora descoberto, veio em minha direção, caminhando lenta e delicadamente pelo pasto muito verde.

O estranho sentou-se ao meu lado e, sem nenhuma cerimônia, perguntou:

– Não é muito bom viver nessa agonia, não é?

De que agonia estaria falando? Da agonia de procurar obsessivamente alguma coisa e jamais encontrar? Da agonia de viver em uma cidade esquecida por Deus? Observei meus colegas, que, entre a curiosidade e o espanto, também me observavam. Pude sentir o cheiro de mofo nas roupas do velho. Ele tocou meu ombro de leve, como um pai a consolar um filho, e, com a outra mão espalmada, me estendeu uma enorme trufa negra, lavada, pronta para consumo.

– Tome, experimente...
– Mas o que é isso, meu senhor? Eu nem o conheço!
– É uma trufa, você sabe... aqui em Formosa elas nascem aos montes, não é preciso nem escavar a terra para encontrá-las... são divinas!

Preocupado com o meu comportamento, o grupo de amigos não demorou a se reunir ao redor da pedra onde eu permanecia sentado. Uns apenas me olhavam, receosos, outros cochichavam entre si. Até que um deles exclamou:

– Você encontrou uma trufa!
– Bem...
– Devia ter avisado em vez de ficar falando sozinho que nem um maluco.

No alto de uma colina que dava para a mata fechada, onde a vista ainda podia alcançar com nitidez, distingui novamente o homem de branco, muito idoso e franzino, que parecia ter estado ao meu lado há poucos minutos. Eu mesmo já não tinha certeza. Ele segurava uma trufa, mais ou menos do tamanho daquela com a qual me presenteara. Mordeu-a com gosto, mastigou pausadamente, revirou os olhinhos e desapareceu em algum ponto da paisagem.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 18h14
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Escritor e filósofo
contemporâneo.

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