08/08/2014


A BIBLIOTECÁRIA


Era um convite de casamento. E o fato de não ter remetente nem carimbo de postagem significava que fora deixado ali pessoalmente. Da inicial lentidão, Paulina passou a acelerar o processo de abertura do envelope, rasgando-o completamente. Ao reconhecer o nome e o sobrenome de um de seus ex-namorados, o único por quem fora verdadeiramente apaixonada, lembrou-se de uma canção de Reginaldo Rossi e não conteve as lágrimas.

Com as lentes dos óculos embaçadas pelo choro, seguiu para o trabalho. Pelo caminho, ia lendo e relendo todos os dados impressos em papel vergê no convite humilde, do nome dos pais da noiva ao endereço da capela em que a cerimônia seria realizada, no município de Schroeder, ao norte da pacata Jaraguá do Sul do final da década de noventa. A distância até a Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa, no centro da cidade, parecia ter dobrado naquela manhã de segunda-feira. Mesmo assim, Paulina chegou no horário.

Durante todo o expediente – e no restante da semana –, classificou livros e revistas com os códigos invertidos, além de guardá-los na seção errada. Confundiu, em diversas ocasiões, a Classificação Facetada, na qual os documentos mais complexos sofrem sucessivos desdobramentos a fim de facilitar-lhes a compreensão e o arquivamento, com a Classificação Decimal Dewey (CDD), bem mais simples, utilizada para agilizar a localização de material em qualquer parte do acervo. Nas prateleiras organizadas recentemente pela bibliotecária, tornaram-se comuns os encontros de Carl Sagan e Carl Jung no espaço destinado à Literatura Oriental ou de Cora Coralina e Cora Rónai no estande dos semanários.



Apesar da paixão com que costumava se entregar ao ofício, não conseguia parar de pensar no grande amor de sua vida nem na proximidade da data do casamento. O homem a quem ela dedicara quase cinco anos da adolescência e da juventude ia se casar com uma desconhecida em menos de dez dias.

Conheceram-se por acaso. Ele, ainda muito novo, havia perdido quase toda a visão em decorrência de uma retinite pigmentosa, doença ocular degenerativa de acentuado caráter hereditário. Paulina o avistou pela primeira vez próximo a uma construção tentando ler um muro de chapisco, imaginando tratar-se de um outdoor em braile. Encantou-se imediatamente com sua ingenuidade e com sua delicadeza. Após o terceiro ou quarto encontro, ele já era incapaz de ir a algum lugar sem ela ou de criticar sua maneira bisonha de se vestir.

O fim do romance foi inesperado, porém, previsível. Enquanto Paulina estava de mudança para Florianópolis, onde cursaria Biblioteconomia na UFSC, ele decidiu seguir sua rotina como instrutor de uma autoescola no próspero município de Corupá, maior produtor de bananas de Santa Catarina. Não houve despedida nem juras de amor. Nem nunca mais deram notícias um ao outro.

Agora, na véspera do matrimônio para o qual fora convidada, estava agitada. Preferia não ter sido lembrada pelos noivos. Perdida num turbilhão de pensamentos desconexos, não conseguiu dormir durante toda a noite de sexta-feira. Precisava libertar-se do passado, precisava fazer com que aquele sábado de maio fosse apenas mais um sábado sem importância.

Ao despontar dos primeiros raios de sol, finalmente, tinha um plano. Perfeito, infalível. Paulina levantou-se, tomou um banho, vestiu sua melhor roupa, contou as notas de dinheiro na carteira e saiu, decidida a fazer o que qualquer mulher faria em seu lugar. Primeiro cortou os cabelos bem curtos; depois comprou quatro pares de sapatos no crediário. A plástica no nariz aquilino, infelizmente, teria que esperar mais um pouco. Talvez até a sua próxima licença-prêmio.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 17h21
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02/08/2014


O ÓCIO OCIOSO


Foi por acaso que entrei em férias no mês de julho. Trinta dias inteirinhos para não fazer nada, como nos tempos do colégio. Mas colégio de antigamente, que fique claro, porque hoje a folga está cada vez menor. Na escolinha do bairro onde moro, por exemplo, os alunos passam somente duas semanas sem aulas. No verão, mais ou menos entre a Proclamação da República e o Carnaval, no lugar dos quase três meses aos quais fui acostumado, a molecada ganha apenas trinta e poucos dias, sem direito a esperar pelo fim da estação ou pela Quarta-Feira de Cinzas, o que é lamentável e preocupante.

O Réveillon vai chegando e o piá ainda está lá: em recuperação, em prova final, em prova de recuperação da prova final. Acabam-se as festas de fim de ano – no melhor momento para se namorar, fazer amigos, viajar, dormir até tarde – e o pobre adolescente vai fazer intercâmbio, curso de férias, reforço de inglês e escolinha de futebol, além de cuidar dos irmãos menores. Fevereiro e o ano letivo começam praticamente juntos, como se uma etapa da vida fosse antecipada, comparável àquelas noites em que a gente chega em casa bêbado depois das três da madrugada e acorda às seis e meia para trabalhar.

Ainda não entendi por que, ao longo de três décadas, as escolas passaram a ocupar o tempo livre de seus alunos com atividades extraclasse e um maior número de aulas no calendário. Que diferença fará, ao futuro de qualquer estudante, aprender a distinguir força centrípeta de força centrífuga, fazer a análise sintática de uma oração ou saber calcular a concentração molar de uma solução? Diminuir as férias de verão e as férias de julho, na minha modesta opinião, equivale a substituir o colesterol bom pelo colesterol ruim na corrente sanguínea de um paciente com problemas cardiovasculares.

Tudo bem que os pais contemporâneos queiram manter a maior distância possível de seus filhos e que as famílias já não se reúnam ao redor da mesa para o jantar, mas é que a falta de tempo ocioso – não necessariamente criativo – acaba comprometendo o futuro das crianças e dos jovens. A cultura da otimização do tempo, no mundo adulto, é o que hoje obriga os shoppings e supermercados a abrirem as portas aos domingos, os empregados a trabalharem doze horas por dia e a descansar apenas cinco horas por noite, e que a busca pelo primeiro emprego comece na puberdade.

A obsessão por "mostrar serviço", que agora vem desde as primeiras séries do colegial, é a maior responsável pelas cretiníssimas doenças da modernidade, como o estresse, a depressão, a síndrome do pânico, os cabelos brancos, o tédio, a preguiça, a caspa e a ausência de vergonha na cara. A escassez dos momentos em que podemos optar por fazer alguma coisa ou não fazer absolutamente nada (férias, feriados, fins de semana) não nos tem permitido absorver informações, pensar na vida, valorizar refeições, relações e relacionamentos ou, simplesmente, tirar uma soneca fora de hora.

Ficar à toa, de papo para o ar, coçar o saco, morcegar, tanto faz. Não há demérito em não se fazer nada de vez em quando. Cada um, desde pequeno, merece ser dono do próprio tempo e gastá-lo como bem entender, sem pressão da família, da escola, da sociedade, de quem quer que seja. E quanto mais tempo sobrar, melhor. Ao contrário do que pregam os gananciosos, os hiperativos, os educadores, os pais sem vocação e os livros de autoajuda, felicidade mesmo é tomar café da manhã em casa, ir à praia num dia útil, acompanhar o pôr do sol e, claro, ter sempre um tubo de Hipoglós à mão.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 21h40
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Escritor e filósofo
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