27/07/2014


CALLING DR. LOVE


Apesar de tudo, creio que ainda não sei muito sobre amor. Mesmo tendo vivido mais casos e romances, passado por mais experiências, atravessado mais décadas do que a maioria das pessoas; mesmo que eu conheça mais palavras para expressar sentimentos – e saiba expressá-los de fato – além da média vocabular da maioria das pessoas; ainda assim, mesmo que vários me considerem um ás no amor, só sei que nada sei.

Digo isso porque, dias atrás, recebi um e-mail de uma leitora que me pedia conselhos sobre relacionamentos e suas várias variáveis. Ela começou a missiva digital com uma pergunta bem simples, bem direta: o amor existe? E eu, obviamente, entrei em pânico. Achei melhor não mentir, apenas florear, aumentar, disfarçar e, em último caso, inventar.

O que dizer quando sempre se gostou mais do que se foi gostado? A única certeza, tanto na visão de quem entra quanto na visão de quem sai, é que o amor existe, sim. E se manifesta das formas mais inusitadas: como em um posto de pedágio, quando você pede moedas à moça ao seu lado, no banco do carona; como em um passeio público, ao avistar uma conhecida – por quem você nutria uma discretíssima simpatia – vindo no sentido contrário; ou como na festa junina da escola do bairro, na qual a professora (que também é sua vizinha) aparece vestida de prenda e coordena com pulso firme a barraca do beijo.

Desconsiderando a parte da fantasia, o normal, na minha modesta opinião, é a gente amar solitária, às vezes platonicamente, e sofrer e se frustrar um monte. Vá lá, cedo ou tarde as coisas se encaixam e alguém nos corresponderá quase na mesma medida. Entretanto, como isso pode ocorrer uma única vez na vida, é preciso estar atento e forte. Eu chutaria que o amor verdadeiro surge entre 25 e 35 anos de idade, mais ou menos. Antes disso é entusiasmo, e depois, quando passamos a nos contentar com pouco, é carência. Em resumo: o amor é unilateral. Reciprocidade ajuda, mas a regra é não existir, lamento.

E atração, paixão, química? Química já é outra coisa, não tem nada a ver com amor. Química é um encaixe de pele, totalmente físico. Amor é um sentimento cerebral. Daí as meninas acharem que ainda amam os primeiros namorados ou os homens fugirem com suas amantes. Após uns meses, quando o sexo fica monótono, não sobra nadica de nada.

Importante mesmo é juntar subsídios para comparação. Só dá para saber se amávamos para valer se, depois do terceiro ou quarto romance, continuamos com a impressão de que o primeiro era disparado o melhor de todos. Claro, sempre levando em conta que amamos sozinhos, por nossa conta e risco. Aquele amor antigo também pode considerar, depois de três ou quatro amores, que fomos uma grandíssima perda de tempo. Cruel, não?

 

Escrito por Alessandro Dogman às 18h37
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20/07/2014


SORTEIO DOS SORTEIOS


Alô, estimados leitores e leitoras!


Que tal concorrer a dois exemplares do meu livro "Das Coisas Simples da Vida", hein? A promoção é uma parceria minha com o Poesia & Música, meu Twitter preferido. As regras estão aí abaixo, e, no final, dois sortudos receberão pelos Correios a obra de estreia desse pobre cronista. Aliás, bota pobre nisso!

1.
O primeiro requisito é ser seguidor dos dois perfis no Twitter, tanto do @Poesia_e_Música quanto do @AleDogman.

2. Depois, basta responder à pergunta QUE COISAS SIMPLES DA SUA VIDA DARIAM UMA CRÔNICA? usando a hashtag #DasCoisasSimplesDaVida até o dia 26 de julho, às 23h59.

3. Os autores das melhores respostas serão retuitados por um dos dois perfis e, assim, participarão do sorteio final. *Só concorrem os residentes no Brasil.

4. O resultado sai no 27 de julho, às 21h, sem direito a recurso, quando os vencedores serão pegos de surpresa e poderão comemorar com a família.

Está compreendido? É claro que aqueles que não ganharem a promoção, a qualquer tempo, poderão adquirir um exemplar de "Das Coisas Simples da Vida" nas melhores livrarias on-line. Taí o link...

Um abraço e boa sorte a todos!



*Atualização em 27/07/2014: As vencedoras da promoção foram @femorbeck (Praia Grande/SP) e @graceramalho1 (Fortaleza/CE), parabéns!

 

Escrito por Alessandro Dogman às 20h22
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13/07/2014


TEXTOS BASTARDOS


A LENDA
foi uma crônica que eu escrevi em homenagem ao Mauro Castro, do blog Táxi Tramas, em março de 2009. O taxista mais famoso do Brasil me serviu de inspiração porque sempre conseguiu dizer muito em poucas palavras, o que é a maior aspiração de qualquer cronista. Na época, eu não perdia nenhuma postagem, então aproveitei a história da loira do banheiro, que circulava com algum sucesso na internet, e fiz uma adaptação meio nonsense para presenteá-lo. Hoje o Mauro já tem três livros publicados, e eu apenas um. Bah! http://zip.net/bpsV9K

A BIBLIOTECÁRIA saiu de um desafio, em setembro de 2008. A Luciana Maria, do blog Perfume de Afrodite, escreveu a primeira parte de um enredo e me pediu que inventasse um final, mais ou menos como as professoras de Artes faziam com a gente na escola, quando rabiscavam uma folha e tínhamos que desenhar a partir dali. Ao saber que a personagem Paulina recebia um envelope em sua caixa de correspondência, optei pelo humor e pelo otimismo para me colocar no lugar das mulheres e adivinhar o que deveria se passar com a moça. http://zip.net/bdsV4y

CORAÇÃO DISLÉXICO
é recente, está no meu livro Das Coisas Simples da Vida, lançado em abril deste ano. A Luciana Silva, do blog Sem-Spoiler, publicou com exclusividade (como parte da série "Autores e seus animais de estimação") esta singela e pessimista crônica, na qual resgato alguns momentos do meu relacionamento com a minha falecida gata, a Muriel, para refletir sobre vários aspectos da vida dos homens e dos felinos. O título vem da música Dislexic Heart, do Paul Westerberg, caso não tenham reparado. Boa leitura a todos! http://zip.net/bpsV9L

 

Escrito por Alessandro Dogman às 16h58
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05/07/2014


DA FRUTIFICAÇÃO DOS FURTOS FURTIVOS


Roubaram o meu capacho. E não me refiro àquele assistente puxa-saco que recebeu uma proposta irrecusável de outra empresa nem àquela estagiária subserviente que se deixou seduzir pelo charuto cubano do aspone da diretoria, não. Roubaram mesmo foi o tapetinho que fica do lado de fora da porta de entrada do meu apartamento.

Um caso muito estranho: cheguei do trabalho e ele, que é peludo, com formato e estampa de gatinho, não estava no lugar de sempre. Olhei primeiro pela janela do corredor, afinal, podia ter voado lá embaixo, como aconteceu há pouco tempo com o tapete de pele de urso de uma senhora do andar de cima. Olhei também na lixeira do prédio. Procurei nas portas dos outros apartamentos, pois a faxineira do período vespertino, já um tanto idosa, seria bem capaz de trocar os capachos. Mas não, nada, "sumiu, desapareceu, escafedeu-se". A velhinha não viu, o porteiro não viu, o zelador não viu, o síndico não viu.

Claro que ninguém viu, estão todos mancomunados com o provável ladrão de adornos de piso que, por sua vez, deve servir a uma rede internacional de tráfico de pelegos com motivos animais.



Na minha lista de suspeitos, em avaliação preliminar, figuram as gêmeas do fim do corredor, sobretudo a mais antipática; o padre Parkinson, com menos chance, pois se ele pegasse o capacho ao meio-dia eu ainda o alcançaria antes das seis da tarde; a estudante solitária e tímida, provavelmente como forma de chamar a atenção antes de apelar para o suicídio; o pai solteiro, tendo como cúmplice sua filhinha com cabelo de Playmobil, porque a menina deve ter achado o tapete bonitinho; e, ainda, o velho pedófilo da porta ao lado, que pode tê-lo oferecido como mimo a uma de suas vítimas, dizendo carinhosamente: "pega aqui no gatinho peludo do vovô" ou "bote fé no velhinho, o velhinho é demais". O fato é que todos tinham um motivo razoável para cometer o crime.

Agora, de cabeça fria, e passadas algumas horas da lamentável ocorrência, já não penso mais em denunciar nem em dar porrada no(a) meliante que subtraiu o tapetinho da minha porta. Decidi que não vale a pena perder o sono por uma caganificância dessas. Amanhã compro outro capacho e pronto, também em formato especial, com desenho de bichinho, mais atraente que o antigo.

Por precaução, o próximo ficará colado ao chão com Superbonder, ligado a um sensor de movimento e a uma câmera fotográfica embutida no olho-mágico. Eu sempre fui assim, desapegado das coisas materiais.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 20h40
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Perfil



Escritor e filósofo
contemporâneo.

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