31/05/2014


BOM DIA, CACHORRÃO!


Entrevista minha ao programa "Bom Dia, Cidadão", apresentado pelo jornalista Henrique Santos, na Rádio AL, emissora da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, no dia 19 de maio de 2014. Em pauta, entre outros assuntos literários, o meu livro de crônicas "Das Coisas Simples da Vida". Ouça e chore com a magniloquência deste pobre escritor. Aliás, bota pobre nisso!

https://soundcloud.com/aledogman/dogman-no-bom-dia-cidadao

 

Escrito por Alessandro Dogman às 20h02
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21/05/2014


MIQUINHOS (2)


Quando eu acho que já recordei todos os pequenos micos que cometi na infância, sempre acabo lembrando de mais algum. Não que sejam melhores ou piores do que outros mais recorrentes, apenas estavam muito bem guardados nos anais empoeirados da minha memória, e só voltam à tona quando me acontece uma situação semelhante ou quando não tenho mesmo coisa melhor para resgatar do passado de outrora.

Houve uma época, no coleginho de freiras onde eu estudava, em que os banheiros não eram totalmente separados para meninos e meninas. A pia era comum a ambos, mas havia duas portas, uma azul e uma cor-de-rosa, cada uma com uma privada. No dia em que fui acometido de uma baita dor de barriga, desafortunadamente, o compartimento masculino estava ocupado. Foi de dentro da "casinha" rosada que ouvi o banheiro se encher de meninas, todas fazendo fila para usar o vaso sanitário a elas destinado.

Alguns anos adiante, porém, ainda no curso primário, em determinado momento do final da década de setenta, era moda os meninos colecionarem figurinhas. Tendo preenchido os álbuns do Super-Homem e do King-Kong, chegara a vez dos Futebol Cards, uns cromos com fotos de jogadores do Campeonato Brasileiro que vinham dentro da embalagem do chiclete Ping-Pong. Eu jamais largava as minhas figurinhas, ao ponto de, com medo de ser roubado, guardá-las dentro da cueca durante a aula de Educação Física. Numa tarde de vento forte, logo no aquecimento, no primeiro polichinelo, voaram todas pelo pátio a fora. Não sobrou nem umazinha para contar a história.

Depois da escola, no playground do meu prédio, a pirralhada recém-apresentada à pré-adolescência costumava brincar de "casamento atrás da porta", um antigo jogo no qual um dos participantes, com os olhos vendados, escolhia, entre os restantes, alguém para dar um aperto de mão, um abraço, um beijo no rosto ou um beijo na boca. A menina mais velha era sempre a mais cobiçada por todos. Na minha vez, quando tive a sorte de ser escolhido, ela foi taxativa: – Vai ser no rosto, porque eu não beijo menino de aparelho.

Antes de entrar em definitivo na vida adulta, ainda aprontei mais uma, dessa vez no colégio de padres em que concluí meus estudos. Um professor faltou e não havia ninguém para substituí-lo, então fomos dispensados até a aula seguinte, incluindo o recreio. As meninas foram jogar vôlei; os meninos, futebol. Como eu usava um Rainha Yatch, extinto modelo de tênis sem cadarço que voava longe cada vez que eu dava um chute na bola, troquei o pé direito pelo All Star de um amigo canhoto. Mais tarde, após quarenta minutos de pelada, soou o sinal, anunciando a hora do intervalo. A turma toda debandou, cada um para um lado. Eu também, usando um pé de cada tênis.

Bem, acho que finalmente acabou o meu estoque de trapalhadas. A inocência se foi. Agora preciso, portanto, alçar voos mais altos no quesito "cagadas memoráveis". Sei que tenho evoluído bastante desde que saí da escola, só que, de lá para cá, não tenho feito nada que mereça ser contado numa crônica, muito pelo contrário. As merdas que cometo sem parar, mesmo as mais engraçadinhas, são de cortar os pulsos.

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Escrito por Alessandro Dogman às 20h41
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13/05/2014


MIQUINHOS


Alguns episódios da minha infância eu não consigo esquecer. Nem sei se dá para classificá-los de "micos", visto que criança faz – ou fazia, antigamente – quase tudo sem querer, na maior inocência. Então, prefiro achar que foram apenas "miquinhos", pequenas histórias que, no fim das contas, não provocaram maiores danos materiais ou psicológicos, nem a mim nem a outrem.

Cronologicamente, a primeira que aprontei foi ainda na pré-escola. No coleginho de freiras em que eu estudava, os banheiros ficavam dentro das salas de aula, como se fossem suítes. Faltando dois minutos para o recreio, precisei fazer xixi. Quando voltei, com mais vontade de brincar no parquinho do que de comer o meu lanche, não encontrei ninguém. A turma toda havia saído para o intervalo e a professora, que em nenhum momento sentira a minha falta, havia chaveado a porta.

No ano seguinte, já no primário, o uniforme mudara. Em vez de camiseta vermelha e jardineira, passamos a usar camisa branca e calça azul-marinho. Era desconfortável, mas não o suficiente para me impedir de subir na amoreira que ficava nos fundos do quintal da escola, antes que meus pais viessem me buscar. A noviça que cuidava do portão sempre perguntava se eu andava roubando amoras, mas eu sempre negava, apesar da camisa manchada de roxo e das folhas grudadas nos cabelos.

Na quarta série, aconteceram duas tragédias, praticamente na mesma época. Para impressionar uma menina que estudava na mesma turma, ingressei na banda da escola. Estava tudo acertado para eu tocar bumbo nos desfiles do dia 7 de setembro. Logo no primeiro ensaio, quando agachei para pegar meu instrumento, a calça de tergal descosturou bem na bunda, do cós ao gavião. Tive que ensaiar uma tarde inteira com o casaco do uniforme enrolado na cintura.

No mesmo ano, ainda apaixonado pela menina que me fizera entrar para a fanfarra do colégio, resolvi demonstrar mais claramente todo o amor que eu sentia por ela, acumulado em menos de uma década de vida. Arranquei um pedacinho de uma das folhas do caderno, escrevi em garranchos um "gosto muito de você", dobrei bem e estendi o papelzinho à minha minimusa. Ela abriu, leu, releu, suspirou e não teve dúvidas: levantou de sua carteira e correu para entregar o bilhete à professora.

A última da qual me lembro, na passagem para a pré-adolescência, aconteceu nas férias de verão. Minha mãe pegou a calça do meu agasalho de Educação Física e transformou numa bermuda. Cortou as duas pernas na altura do joelho e refez a bainha. Orgulhoso, vesti a nova peça e saí para uma volta pelo bairro, onde absolutamente todos que cruzaram o meu caminho olharam para o extravagante calção. Devem ter reparado, antes de mim, que uma perna era bem mais curta do que a outra.

Hoje em dia, eu já não pago mais micos. Na verdade, o que eu cometo são incomensuráveis cagadas, bem diferentes dos meus incidentes de infância. As consequências são quase sempre irreversíveis e, na maioria das vezes, geram algum tipo de ônus para o meu ânus. Além disso, não fazem rir como as estripulias da época de escola. Essas eu nem conto, pois são de chorar.

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Escrito por Alessandro Dogman às 23h41
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05/05/2014


DO ABASTECIMENTO DE GÁS NOS CONDOMÍNIOS


O Oscarzinho não saía lá de casa. Como o nosso apartamento ficava no caminho da escola e ele não tinha irmãos para brincar, dava sempre um jeito de chegar mais cedo, só para matar um tempinho antes de o primeiro sinal bater. E mesmo depois das aulas, nos dias em que havia Educação Física ou reunião do grêmio estudantil, aproveitava para filar um almoço e esticar a diversão até o fim da tarde. Bons tempos aqueles da 8ª série do Colégio Catarinense, na primeira metade dos anos oitenta.

Mamãe vivia de cabelos em pé quando o Oscarzinho estava por perto. Sem nenhuma habilidade para o futebol, por exemplo, toda vez que chutava uma bola nas nossas disputas de "gol a gol" no corredor, era batata que ele acertaria uma estatueta, um quadro, um porta-retratos ou um abajur. Por isso, tínhamos sempre Superbonder à mão, para socorrê-lo nos momentos de tragédia anunciada.

Na cozinha, também era um desastre. Até para preparar um simples lanche, antes de estudar para alguma prova, ele arranjava confusão. Nós nunca fomos capazes de explicar à minha mãe – a quem chamava carinhosamente de "tia" – como o Oscarzinho conseguiu derrubar uma lata de Nescau dentro de uma jarra de suco de laranja. A cor ficou bisonha, mas o gosto agradou aos mais exigentes paladares da nossa turma.

Daquela época de inocência, dentre todas as histórias que envolviam o Oscarzinho, a melhor continua sendo a do fornecedor de gás. É que não havia gás central no condomínio, então, uma vez por mês, o caminhão da companhia distribuidora estacionava na calçada e oferecia um botijão recarregado aos moradores interessados.

Certa vez, a encomenda estava demorando a chegar, pois já fazia quinze minutos que o zelador avisara pelo interfone que o entregador estava subindo. Mamãe pediu ao Oscarzinho para abrir a porta e verificar o porquê do atraso. A poucos metros do nosso apartamento, perto do elevador, o moço uniformizado, suado e ofegante, largara o botijão e sentara-se sobre ele para descansar um pouco. O meu amigo não teve dúvidas, depois de olhar lá fora, botou de novo a cabeça para dentro e gritou na direção da cozinha:

– Peraí, tia... o homem ainda tá enchendo o bujão!

 

Escrito por Alessandro Dogman às 01h47
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Perfil



Escritor e filósofo
contemporâneo.

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