27/04/2014


UMA NOITE ALUCINANTE




Confira as fotos do lançamento do meu livro DAS COISAS SIMPLES DA VIDA – E OUTRAS CRÔNICAS, pela Giostri Editora, na Saraiva MegaStore do Shopping Iguatemi, em Florianópolis, na noite de 24/04/2014. CLIQUE AQUI

 

Escrito por Alessandro Dogman às 22h14
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15/04/2014


AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA


Vou confessar a vocês: sempre gostei de escrever, desde pequeno. Os meninos da rua em que eu morava se reuniam para jogar bola, soltar pipa ou andar de bicicleta, e eu ficava em casa, escrevendo, tocando violão ou lendo. Escrevia letras de música, poemas, pequenos contos e até um diário.

Minha mãe, quando lia alguma redação nos meus cadernos de escola, dizia afetuosamente: "Tu levas jeito pra cacete, meu filho". A primeira namorada, que às vezes roubava o meu diário para ver se eu não andava apaixonado por outra, também comentava: "Você leva jeito pra cacete, cachorrinho". E as professoras de Língua Portuguesa, apesar de me considerarem um tanto disperso, elogiavam com frequência: "O senhor leva jeito para cacete, pode acreditar".

Até que me tornei um cacete, pois parecia ser essa a minha vocação.

Claro que joguei bola, soltei pipa e andei de bicicleta. Namorei outras meninas depois da primeira namorada. Entretanto, foi só lá pela oitava série que ganhei a primeira nota dez em Redação. No mesmo ano, o aluno mais desajustado da escola, o Miguel, escreveu e editou um livro. Lembro que, na época, apenas pensei com os meus botões: "Porra". Imediatamente, comecei a desenvolver uma saga que levou todo o segundo grau para chegar ao fim. Era uma história – sobre um piá de onze anos que descobria que tinha um tumor no cérebro e precisava dar um jeito de comer a empregada para não morrer virgem – que não se aplicava nem a crianças nem a adolescentes, portanto, impublicável.

Desiludido com a primeira tentativa fracassada, deixei a literatura de lado e comprei uma guitarra. Foi um período de vacas gordas. E também de vacas magras, altas, baixas, loiras, morenas, mulatas, novas, velhas e japonesas. Sobre dinheiro, não posso dizer nada, mas é certo que músicos ganham mais mulheres do que escritores.

Já na faculdade de Letras, uma adorável professora de Literatura voltou a repetir uma frase que me era familiar: "Você leva jeito, rapazinho". "Pra cacete?", eu perguntei. "Não, não, acho que você dá para cronista". Dessa vez não me deixei influenciar. Nunca dei nem para cronista nem para contista nem para poeta.

Então, o tempo passou. Muito mais tempo do que eu gostaria, aliás. Li bastante e escrevi pouco, até sofrer um espasmo de lucidez – talvez fossem gases, não tenho certeza – e ganhar novo ânimo para exercitar esse meu dom: o dom de transformar fatos irrelevantes em entretenimento barato. Acredito, portanto, que é a derradeira chance, agora com o lançamento do meu primeiro livro (aqui), de deixar de ser o cacete que sempre fui e de preservar a integridade das minhas partes peripopéticas, onde o sol não brilha e que só a terra há de comer.


 

Escrito por Alessandro Dogman às 19h52
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09/04/2014


COMUNICAÇÃO


Eu estava de saída para levar a minha gata ao veterinário quando o telefone fixo tocou. Mesmo atrasado e não tendo reconhecido o número no identificador de chamadas, larguei a casinha com a bichana dentro (que a essa altura já esperneava como um Diabo da Tasmânia) e atendi pacientemente, torcendo apenas para que não fosse ninguém da Legião da Boa Vontade.

– Alô!
– É o senhor Dogman que está falando?
– É ele mesmo.
– Aqui é o Nailor, gerente do Banco Descompleto.
– Pois não...
– Estou ligando para avisar que a sua conta está negativa.
– Meu amigo, eu nem tenho conta nesse banco.
– Bem, deve ter havido algum engano...
– Será?
– O senhor tem interesse em ser cliente do Banco Descompleto?
– Mas nem que fosse o último banco do mundo.
– Veja bem...
– Não vejo, não.

Respirei, contei até dez e saí para cumprir a função de pai. Minha única filha (eu sei, é uma gata) acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor nas tetinhas e precisava consultar semanalmente.

Depois de alguns minutos, entre o momento de abrir a portinhola da jaula e a operação para resgatar a felina de cima do trilho da cortina, saí da clínica com uma receita em mãos, na qual o médico recomendava um spray miraculoso para ajudar na cicatrização. O papel timbrado, estampado com o logotipo de um cachorro enrolado num estetoscópio, não deixava dúvidas de que se tratava de uma instituição de saúde estritamente animal.

Entrei, então, na drogaria mais tradicional da cidade, esquina de uma praça velha com um calçadão sujo. Abri a receita sobre o balcão e nem precisei de senha para consultar o farmacêutico.

– Meu jovem, por acaso tens esse remédio?

O rapaz, de jaleco impecavelmente branco, óculos bifocais, maior cara de cê-dê-efe e pinta de recém-formado, analisou o documento, leu e releu o nome do medicamento, coçou o queixo e perguntou, categórico:

– É para o senhor mesmo?

 

Escrito por Alessandro Dogman às 23h55
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04/04/2014


COISAS DE CASAL


Sexta-feira abafada de outono, depois de uma semana daquelas, mais ou menos nove da noite, eu já de pijama, ar-condicionado ligado no modo glacial, apenas esperando o entregador da pizzaria. Ela chega da rua (elétrica, ofegante) e faz a proposta indecente:

– Amorzinho, mais tarde vai ter churrasco do pessoal do meu trabalho, lá na casa da Dandara e do Rajinish, vamos?
– Hummm... o casal de maconheiros?
– Ah, eles só fumam no fim da festa, aí a gente vem embora.
– Sei...
– Só temos que levar cerveja.
– Mas eu nem bebo, pô! Quem mais vai?
– Ah, vão os meus amigos do Face...
– Hummm... aqueles que você nem conhece pessoalmente?
– Pois é, vou conhecer hoje! Os meus primos, o Cecê e o Beto Caroteno, também vão... e a Maria do Socorro, aquela da Igreja do Evangelho Disforme, também disse que vai.
– Hummm... não foi essa que deu pro seu ex-namorado?
– Ah, são águas passadas, amorzinho, agora eu tô com você... vamos?
– Faz assim, benzinho: você pega o nosso carro, vai lá, faz um social, come, bebe e volta na hora que você quiser, enquanto eu fico aqui vendo Mirassol e Catanduvense pela Rede Vida, que tal?
– Ah, se você não for eu não vou.
– Vai, sim... você se diverte lá com as filhas da Baby Consuelo e o Exército de Brancaleone que eu me divirto aqui tomando Nescauzinho com pizza.
– Mas, amorzinho...

Por sorte, toca a campainha. Levanto do sofá em busca das minhas Havaianas e do dinheiro para a encomenda. Pego a caixa sextavada gigante e, antes de mesmo de eu abri-la, ela faz cara de choro e (agora bem menos entusiasmada) resmunga baixinho:

– Quais são os sabores?
– Meia atum acebolado, meia coração de frango.
– Você não pediu de rúcula com tomate seco?
– Hummm... não.
– Ah, eu sabia que isso ia acontecer um dia...
– Isso o quê?
– Você não me ama mais.

 

Escrito por Alessandro às 02h12
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Perfil



Escritor e filósofo
contemporâneo.

dogman@uol.com.br

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