CIDINHA PASSE-PARTOUT ENTREVISTA

Não sei se contei, mas um dia desses fui entrevistado, por telefone, para um programa de rádio. Uma jornalista das antigas (que tem nome de drag queen), chamada Cidinha Passe-Partout (pronuncia-se "paspatur"), reuniu várias crianças das escolas municipais de São Sebastião, no litoral paulista, para me fazerem perguntas em seu programa matinal dedicado à família e aos bons costumes. No começo achei que estavam me confundindo com outra pessoa, mas depois descobri que um artigo meu, sobre a importância de se fazer o auto-exame do câncer de próstata, foi publicado na Folha de S. Sebastião e fez o maior sucesso entre a petizada. Por minha causa, o secretário municipal de educação baixou uma portaria proibindo os meninos de enfiarem o dedo no cu durante as aulas. Confesso que meu ego ficou inflado, ainda mais que a entrevista foi transmitida, além da rádio local, também para a Rádio Torneira (de Registro/SP), Rádio Sanduíche (de Bauru/SP), Rádio Bandeirinha (de Juiz de Fora/MG), Rádio Calculadora (de Contagem/MG) e Rádio Percal (de Lençóis Paulista/SP). Eis, então, algumas das perguntas que tive que responder em quase uma hora de sabatina.

CIDINHA - Olá, Dogman, tudo bem? Diga-nos onde você nasceu e qual é a sua idade.
DOGMAN - Alô, minha gente amiga! Eu nasci em Florianópolis mesmo, sou um autêntico "manezinho da ilha", só não me lembro mais em que ano isso aconteceu. (risos)

CARMINHA - Você tem filhos ou pretende ter?
D - Não. Não pretendo deixar descendentes nesta encarnação e, na verdade, nem gosto muito de crianças. (pausa)  Brincadeirinha, brincadeirinha! O cachorrão aqui sempre foi amigo da garotada. (risos)

SUELENZINHA - Descreva seu par romântico ideal.
D - Eu não gosto de mulheres muito bonitas. Vaidade conta, mas cultura é imprescindível. Meu par ideal deve gostar, preferencialmente, das mesmas coisas que eu, rir das mesmas piadas, ouvir as mesmas músicas, freqüentar os mesmos lugares, etc. Se houver diferenças, que ela saiba entender a importância das coisas num universo que não é o seu. E se for órfã e podre de rica, melhor ainda. (risos)

PAULINHO - Qual é a sua opinião sobre religião?
D - Sou ateu e o assunto não me interessa. Mas o que vocês devem saber, criançada, é que pessoas religiosas demais, geralmente, são malas de papelão sem alça na chuva. (risos)

PAULINHO - A política é importante para você?
D - Não. E acho um saco sair de casa pra votar a cada dois anos. (risos)

JULINHA - Qual é o seu programa de TV favorito?
D - O seriado Friends, no canal Warner.

MARIELINHA - Qual é o seu filme favorito?
D - "A Fraternidade é Vermelha", do Krzysztof Kieslowski.

SUELENZINHA - Lemos no seu blog que você não gosta da Ivete Sangalo, é verdade?
D - Verdade. (vaias)

ALEXZINHO - Qual é o seu esporte favorito para praticar? E para assistir?
D - Gosto de assistir futebol e tênis. Para praticar, nenhum, tenho mais o que fazer. (risos)

JUNINHO - Como você descreveria o seu humor? Com que freqüência você perde o humor?
D - Estável. Nunca perco o meu bom humor. E anda logo com a próxima pergunta, pô! (risos)

PAULINHO - Quando foi a última vez que você bateu, socou ou chutou alguém?
D - Em 1984 eu cobri o meu irmão do meio de porrada porque ele atirou um de meus discos preferidos pela janela. Que eu me lembre, foi a última vez... a última vez que ele mexeu nos meus discos. (risos)

MARIELINHA - Liste três adjetivos que melhor descrevem você.
D - Criativo, charmoso e modesto. (risos)

HUGUINHO - Se você pudesse ocupar algum cargo político, qual seria?
D - Secretário de Turismo. Sou louquinho pra cobrar pedágio na entrada de Florianópolis e selecionar melhor os turistas que vêm passar férias aqui. Curitibanos e argentinos não entrariam nem pagando. (risos)

JULINHA - Qual a sua realização da qual você mais se orgulha?
D - Uma vez consegui montar em meia hora um quebra-cabeça da Grow que dizia na embalagem: de 2 a 3 anos. (silêncio)

CARMINHA - Descreva o seu dia perfeito.
D - Meu dia perfeito começa depois das dez da manhã, passa por um almoço em boa companhia, por uma música do Iggy Pop, por um texto do Rubem Fonseca, por um jogo do Corinthians, por um sorriso da menina que me atende na locadora de vídeo, e termina com uma taça de sorvete, comigo usando a camiseta mais velha que tiver no guarda-roupa.

SERGINHO - Quem é seu herói e por quê?
D - É o J.D. Salinger, por ter escrito a maravilha que é "O Apanhador no Campo de Centeio" e depois se isolado da humanidade até o fim da vida, sem publicar mais nenhum livro.

ALEXZINHO - Pra que time você torce? Por que virou torcedor?
D - Pro Corinthians, óbvio. (risos)  Quando vocês não eram nem projeto de genta ainda, quando eu tinha uns seis ou sete anos, apareceu um vendedor de pôsteres na casa dos meus avós paternos. O meu avô me chamou e me mandou escolher qualquer um deles pra mandar emoldurar. Pois não é que eu escolhi o São Jorge, sem nem ter idéia de que era o santo-padroeiro do Timão? Acho que foi o cavalo branco que eu achei legal. Depois de duas semanas chegou a encomenda, numa moldura roxa, que era a minha cor preferida na época. No ano seguinte, em 1977, eu passei a torcer pelo Corinthians, quando o time foi campeão paulista depois de vinte e dois anos na fila. Hoje usamos a camisa roxa em jogos especiais, apesar de eu achar a cor horrível. (risos)

CARMINHA - Liste três coisas que você levaria para um acampamento.
D - Um livro, um baralho e chicletes de hortelã.

SUELENZINHA - Você já esteve numa praia de nudismo? Se sim, como foi?
D - Não, nunca. Tenho o pinto pequeno, morro de vergonha. (risos)

CIDINHA - Complete a frase: Minha motivação de vida é...
D - ...ferir duramente todos aqueles que já me feriram um dia.

MARIELINHA - Que tipo de pessoa você escolheria para conviver diariamente?
D - Pessoas contidas, intelectualizadas e razoavelmente organizadas.

MARIELINHA - E que tipo de pessoa você não escolheria para conviver?
D - Pessoas que falam no gerúndio, que ouvem música baiana ou que sejam muito religiosas.

HUGUINHO - O que você acha mais difícil na convivência com as pessoas?
D - As pessoas. (silêncio)

JUNINHO - Você gostaria de ficar famoso um dia? Por quê?
D - Sim, para poder influenciar positivamente a geração de vocês.

JULINHA - Você tem algum segredo?
D - Tenho, mas não posso revelar. (risos)

SERGINHO - Você já fez o auto-exame do câncer de próstata?
D - É a mesma pergunta? Já disse que não posso revelar, pô! (risos)



Na minha coluna do Guia Floripa de hoje (clique aqui) tem um texto antigo, porém, recauchutado. Reparem na foto, que vale mais do que todas as palavras.

Escrito por Dogman às 07:50 [   ] [ Recomende este texto ]





CASO ISABELA (1)
Não fui muito com a cara do casal Alexandre a Anna Jatobá. Ele é falso e ela é safada. Queridinha mesmo é a mãe biológica, Ana Oliveira, do tipo "pra casar". No começo imaginei que talvez o atual namorado da mãe, enciumado, tivesse entrado no apartamento e jogado a menina da janela, para que ela não tivesse mais vínculos com o pai. Que nada, a solução tem-se revelado previsível. Ainda assim, até o último minuto, vou torcer para que o casal seja declarado inocente. Explico: é que ontem, no Jornal do Almoço, aquele colunista obsoleto e folclórico (que usa Crocs, lembram?) disse com todas as letras que pediria demissão da Globo local se Alexandre e Anna Carolina não fossem os assassinos. Vai ser difícil a situação se reverter, mas a esperança é a última que morre, não é mesmo? Oremos.

DOIS MILHO E BUM: PADRE ABOBADO NO ESPAÇO
Não é por nada, não, mas qual é a explicação para um padre querer entrar no Guinness  por voar a maior distância preso em balões de festa? Simples: é um camelo. Devido ao mau tempo o sacerdote foi levado pelo vento do Paraná até o norte de Santa Catarina, onde desapareceu. Não duvido nada que, se o estúpido estiver vivo, vá ser tratado como herói e não como um burro sem noção, prestando-se a uma idiotice dessas.

CASO ISABELA (2)
Que o povo tenha curiosidade de saber quem matou a menina eu até entendo. Mas daí a neguinho (branquinho também) acampar na frente do apartamento do casal, chutar o carro da família, querer invadir o prédio pra linchar os suspeitos ou ir ao cemitério visitar o túmulo da criança, já é um pouco demais. Isso é que dá as pessoas não valorizarem a própria vida. Preferem se preocupar com a dos outros e até, em alguns casos, viver um drama que não é o seu. Não sei se concordam, mas o mundo seria bem melhor se cada um cuidasse dos seus problemas. Só falta agora alguém dar a idéia de beatificar a criança.

A PRIMEIRA MISSA EM FLORIANÓPOLIS
No sábado passado fui visitar a exposição do quadro "A Primeira Missa no Brasil", pintado pelo catarinense Victor Meirelles entre 1859 e 1861. A obra, que ilustrou os livros de história da minha época de escola, impressiona pelo tamanho (quase 9m²), mas decepciona pela falta de qualidade. Curiosamente, os portugueses, ao centro, são nítidos e finamente detalhados, enquanto os índios, em volta, são embaçados, nas coxas, como se fossem pintados por outra pessoa, sem o mesmo talento. Sabe-se (está nas enciclopédias) que o artista era patrocinado pela Monarquia e, portanto, não é de se duvidar que ele caprichasse na parte relativa a quem fez a encomenda e não estivesse nem aí para o povão pele-vermelha.



A PIOR TV DO MUNDO
Um programa vespertino da Band, no último feriado, estampava a seguinte manchete: "Gêmeos de Fernanda Lima são fofos" (veja aqui). Inacreditável a profundidade do texto, não? Assim como inacreditável é a grande bobagem comandada pelo Marcelo Tas, chamada CQC (Custe o que custar), que envia repórteres absolutamente sem graça para as ruas a fim de perseguir e tirar do sério pessoas famosas, do mesmo jeito que Vesgo e Ceará já fazem há anos, de forma igualmente sem graça no Pânico. E para arrematar, ainda nos embalos da série "isto é incrível", Raul Gil tem um programa (desde fevereiro!) chamado "Todo Domingo é Natal", em que suas assistentes de palco usam gorrinhos de Papai Noel e o público ganha presentes. Depois a diretoria da Band vem dizer que não entende por que a emissora investe tanto e continua amargando a pior audiência do país. Eu entendo perfeitamente.

VÔLEI FEMININO
Cara-de-pau da Fernanda Venturini querer voltar à seleção feminina de vôlei, hein? A guria admite que está velha, anuncia a aposentadoria e assim, sem mais nem menos, quando fica entediada em casa, resolve que quer jogar de novo. Bem-feito, não foi convocada.

VÔLEI MASCULINO
Pior do que final de campeonato em jogo único é o jogo único ser realizado no Rio de Janeiro, mesmo que os times finalistas sejam de Minas Gerais e Santa Catarina. Isso é coisa da Globo, o Midas ao contrário das comunicações no Brasil, tudo que ela toca vira merda.

O SEGREDO DO FIM DO MUNDO
Eu sei por que as famílias de hoje em dia são tão desunidas. A ganância do comércio foi o que sepultou aquele ritual de se almoçar aos domingos ou de se tomar um café no fim da tarde nos dias santos, com todo mundo junto, batendo papo, repetindo piadas antigas e se acotovelando à mesa. Ontem, por exemplo, os shoppings e supermercados de Florianópolis conseguiram, na justiça, uma liminar para funcionar durante o feriado, mesmo não tendo feito acordo com os sindicatos acerca da remuneração dos funcionários. Ou seja, os gananciosos, além de não darem atenção aos próprios filhos, parentes e amigos, ainda querem que seus funcionários nunca mais almocem com a família ou que não tenham tempo de levar suas crianças ao parque. E o povo vai às compras, sem imaginar que os momentos de sossego de um dia "inútil" vão lhes fazer falta muito em breve.



Não deixe de prestigiar também a minha coluna Anacrônicas no Guia Floripa (clique aqui), dessa vez falando sobre um incidente ortopédico no restrito Clube de Casais.

Escrito por Dogman às 08:01 [   ] [ Recomende este texto ]





SKAVURZKA É O CACETE!

Desafio qualquer um, leitor deste blog, a tentar cancelar uma assinatura de tevê a cabo através do atendimento telefônico da Net. É uma proeza praticamente inalcançável, minha gente amiga, tão ou mais difícil do que chegar ao topo do Everest. Não importa o motivo (e não vou revelar qual é o meu caso), seja por que você vai morar com alguém que já é assinante, por que arrumou mais um emprego à noite e ficou sem tempo de curtir a programação ou por que o plano coletivo do condomínio sai bem mais em conta, o fato é que fazer contato com o "setor de cancelamento" da referida empresa pode ser estressante como aguardar resultado de exame de gravidez, dolorido como levar um chute de surpresa no saco, cansativo como sair pela janela quando o marido resolve chegar cedo ou, ainda, pior do que tudo isso ao mesmo tempo. Durante vinte dias, aproximadamente, travei os mais surreais diálogos com as atendentes da Net, que divido, a seguir, alguns trechos com vocês.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo.
– Qual seria o motivo, senhor?
– Nenhum motivo, só quero cancelar.
– Sem um motivo a Net não poderá estar cancelando, senhor.
– Tá bom, é porque eu vou estar me suicidando em trinta segundos, registra aí.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Tentei cancelar a minha tevê a cabo ontem, mas o sistema estava fora do ar.
– Aguarde um momento, senhor.
– Rápido, por favor, senão a minha conta telefônica vai sair mais cara do que a mensalidade.
– Problemas com o Net Fone não são resolvidos por este setor, senhor.
– Não, não, eu quis dizer... nada, não, esquece.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Tentei cancelar a minha tevê a cabo ontem, mas não me acertei com a atendente.
– Mas qual o motivo, senhor?
– É que eu vou me mudar pra outro país, bem longe daqui.
– E qual seria o novo endereço de instalação, senhor?
– Qualquer um onde a Net não tenha cobertura, vê aí pra mim.

– Pois não, senhor, em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo, será que é pedir muito?
– Ah, mas eu estou vendo aqui que o senhor é um cliente muito antigo...
– E daí, qual é a vantagem?
– Nenhuma, senhor, eu apenas verifiquei que a sua assinatura é muito antiga.
– E eu por acaso te pedi pra verificar alguma coisa? Fica na tua, pô!

– Bem-vindo ao atendimento telefônico Net, para usar o menu de voz, diga: "quero falar".
– Puta-que-pariu!
– Você escolheu utilizar o menu de voz, agora diga o que deseja.
– Quero que vocês vão estar se fodendo!
– Sua ligação está sendo transferida para um de nossos consultores, por favor, aguarde.
– Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...

– Senhor, queira anotar o número do protocolo de cancelamento.
– Porra, nem acredito!
– Como, senhor?
– Nada, não. A novela acabou, então? A minha novela, não a da Globo, que fique claro.
– Agora o senhor deverá estar entrando em contato com o setor técnico para desconexão.
– Ah, entendo... e qual setor poderá estar me dando um tiro, por gentileza?



Esta semana, no Guia Floripa (clique aqui), tem uma crônica muito especial sobre quem nos inspira (a nós homens, claro) os melhores sonhos durante o estágio REM do sono.

Escrito por Dogman às 07:42 [   ] [ Recomende este texto ]





MUNDANA

– Já vou indo. – Ele me diz, abotoando nervosamente a braguilha.
– Pode ficar se quiser.
– Não, não posso.
Levanto para levá-lo até a porta. Sinto a porra ainda quente me escorrer por entre as pernas. Visto o robe e esfrego uma coxa na outra enquanto caminho. O velho me estende uma nota.
– Toma aqui.
– Não tenho troco.
– Não faz mal, semana que vem eu desconto.
– Tá.
Ofereço o rosto para um beijo, mas ele não entende. Me dá apenas um tapinha nas costas enquanto roça sua enorme barriga na minha cintura. Desaparece no fim do corredor.
Fecho a porta, o telefone toca.
– Alô.
– Quem fala?
– Madre Teresa.
– Oi, gostosa!
– Vendeu as fotos?
– Vendi.
– Não acredito! Pros japoneses?
– É, e eles querem mais.
– De que tipo?
– Aquelas com a tua amiga, como é mesmo o nome?
– Marcinha.
– Isso mesmo.
– Me traz a grana hoje à noite que a gente combina.
– Só se tiver trepada.
– Nem pensar.
– Chupada.
– Não.
– Punhetinha.
– Fechado.
É o preço da eficiência. Desligo aliviada.
Corro para o banheiro, nua pelo apartamento. Talvez um bom banho me lave a alma. Deixo a água correr no ar e depois pelo corpo. Esqueço um pouco do mundo lá fora.
Ao desligar o chuveiro sinto frio, um arrepio que congela os ossos. Enxugo rápido cabeça, tronco e membros. Quando finalmente paro em frente ao espelho é que percebo as marcas dos dentes do velho nos meus peitos. Filho-da-puta! Peitos filhos de uma puta! Se pelo menos não fossem tão brancos. Procuro o pancake  na gaveta, disfarço o que posso.
Visto minha melhor roupa de passeio, faço uma maquiagem discreta, mas não fico satisfeita. Só nascendo de novo, então.

Saio pela garagem, atrasada, tentando me equilibrar no salto um tanto alto. Ela já me espera do outro lado da rua. O carro não é o mesmo, mas é maior e mais bonito que o da última vez. Sorri quando me vê.
– Oi.
– Quinze minutos atrasada.
– Desculpa... vamos lá?
– Sinceramente, hoje eu só queria companhia.
– Sem problemas.
Entro no carro e sinto seu perfume.
– Vamos ao cinema?
– Vamos.
Ela abre a bolsa, tira um maço de cigarros e uma nota de cem.
– Pega.
– Não precisa.
– É pelo tempo perdido.
Aceito a nota. Ela acende um cigarro, dá uma tragada longa. Solta a fumaça pela janela e atira o cigarro na calçada. Não entendo nada.
Guardo meu dinheiro, já com o carro em movimento. Passo suavemente a mão em seus joelhos, em sua coxas, em sua barriga. Levanto sua saia e invado o delicado vale entre suas pernas. Sinto sua umidade e seu calor.
– Hoje não, por favor.
– Tudo bem.
Sei que não iremos a nenhum cinema. Rodamos sem parar, durante quase uma hora, pela cidade cinzenta e vazia. O céu já vai escurecendo, então peço a ela que me deixe no endereço que mostro anotado em um guardanapo. Rimos juntas uma última vez.
Quando o carro pára, em frentre à casinha verde, me despeço com dois beijos, um no rosto, outro na boca. Ela fica de ligar na próxima semana, o que consinto com um movimento de cabeça. Não tenho amor nem dor, apenas a sensação do dever cumprido.

Entro pelo portãozinho enferrujado e toco a campainha. Ouço passos do lado de dentro. Ele abre a porta, de pijama, um pouco despenteado, cara de sono.
– Oi, mulher!
– Não sou mais sua mulher, esqueceu?
– Pra mim é como se fosse.
– As crianças?
– Na escola.
Abro minha bolsa e tiro o bolo de notas, que nem tive tempo de contar.
– Vim trazer o dinheiro.
– Ainda tem do mês passado.
– Não faz mal, compra alguma coisa pra você.
– Quer entrar? Acabei de passar um café.
– Não, tenho que ir.
– Tá.
Viro as costas e saio apressada pela rua sem calçamento. Noto um fio puxado na meia fina. Merda! Ajeito a calcinha que vai entrando na bunda. Chamo um táxi e relaxo um pouco. Tento lembrar de cabeça o número do telefone da minha amiga Marcinha.



Hoje resolvi fazer o contrário, o texto do Guia Floripa (clique aqui) é antigo e este do blog é que é inédito. Em vez de crônica é um conto, que eu cometi um dia desses.

Escrito por Dogman às 07:59 [   ] [ Recomende este texto ]





QUIZ MUSICAL

Não se faz mais música boa como antigamente. E o que é pior: nunca se fez tanta música ruim como hoje em dia. Cantores e cantoras sem o mínimo talento entram e saem da parada com a mesma facilidade com que são esquecidos pelo público logo em seguida. Grupelhos (de emos, de pagodeiros, de jamaicanos, de paraenses, de donas de casa) abundam nas rádios e desaparecem antes que alguém consiga soletrar "pindamonhangabense".

Mas apesar da efemeridade da música moderna, pode surgir, numa roda de amigos, uma conversa sobre o panorama artístico atual, já pensou? E é nesse momento que você não vai querer passar por ignorante, sem conhecer (ao menos de nome) os artistas do momento, ainda que se transformem em ilustres desconhecidos em poucos meses.

John Legend? Amy Winehouse? Snow Patrol? Zezé Menotti e Marrone? Misericórdia, quem é essa gente? Faça o teste e veja como andam seus irrelevantes conhecimentos musicais.


01. Cantora americana por quem este blogueiro tem particular implicância:

a) Alicia Keys
b) Alicia Recusous
c) Alicia Vaipensars

02. Cantor brasileiro afrescalhado que imita o Djavan descaradamente:

a) Jorge Vercilo
b) Jorge Verpálpeba
c) Jorge Vermeninadosolos

03. Rapper que se acha o último quadradinho de chocolate meio amargo por trás da película Insulfilm em noite sem lua, famoso por espancar pacificamente seus inimigos até espirrar miolo na parede:

a) 50' Cent
b) 50' Levant
c) 50' Finjdemorto


04. Grupo de desocupados que nunca ouviu um samba de verdade:

a) Inimigos da HP
b) Inimigos da Música
c) Todas as anteriores

05. Espécie de Preta Gil americana, só que magra, loira e milionária:

a) Paris Hilton
b) Londres Carlton
c) Brasília Derby

06. Cantora da nova geração que, por não cantar nada, faz muito sucesso:

a) Rihanna
b) Gargalhanna
c) Semijatodhanna

07. Cantora baiana esquecida pela mídia, vencedora do Grammy  latino:

a) Daniela Mercury
b) Daniela Mertiolaty
c) Assopra, assopra!!!


08. Metaleiros ingleses veteranos, tocaram recentemente no Brasil:

a) Iron Maiden
b) São Silvestren
c) Maratona de Nova Yorken

09. Provavelmente a pior banda gaúcha da história da música mundial:

a) Papas da Língua
b) Tatuzinhos do Nariz
c) Pregas do Cu

10. Dubladora americana famosa por andar sem calcinha para disfarçar a celulite:

a) Britney Spears
b) Britney Toss
c) Benegrip!!!


Respostas: Na próxima edição, de cabeça pra baixo, no cantinho, em letras miúdas.
Fotos: P. Quevedo (03. Jards Macalé) e Zibia Gasparetto (07. Freddy Krueger)



Alguém imagina do que são capazes as pessoas que vêem muita televisão e lêem muito Nelson Rodrigues ao mesmo tempo? São capazes de cometer uma crônica que nem a minha de hoje (clique aqui) no Guia Floripa. Por favor, não se assustem.

Escrito por Dogman às 08:01 [   ] [ Recomende este texto ]



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