10/11/2015


O CACHORRÃO E O SONHO


Queridos amigos e amigas, apesar do impacto que isso causará no dia a dia de todos, resolvi passar um tempo sem publicar novos textos aqui no blog. É que estou escrevendo um romance e tenho prazo determinado para conseguir terminá-lo. Em princípio, o novo livro, cujo título provisório é 50 Tons de Marrom-Cocô, tratará dos relacionamentos mais escatológicos da minha vida e terá capa aromática. Não que isso não possa ser mudado, e não que eu não possa desistir do projeto, mas vou meter a cara mesmo assim.

J.D. Salinger (1919-2010) tinha apenas um testículo e escreveu O Apanhador no Campo de Centeio, verei o que consigo fazer com dois. Desejem-me inspiração, sorte e, sobretudo, disciplina. Até breve!


Escrito por Alessandro Dogman às 14h23
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24/09/2015


BODAS DE VENTO


Foi num sebo do interior de São Paulo que David descobriu o livro de Gregory Corso (1930-2001). A raríssima edição de Gasolina & Lady Vestal, autografada pelo autor, com prefácio de Allen Ginsberg, custaria a ele dois ou três meses de salário, mas não se importava com isso. Qualquer dinheiro sempre lhe parecia bem gasto se fosse para colocar um sorriso no rosto de Ângela, sobretudo na próxima quinta-feira, data em que completariam dez anos de casados. Era o livro predileto dela, que, por sua vez, já havia desistido de procurá-lo depois que seu exemplar desaparecera ao final de uma comemoração de Ano-Novo no apartamento onde moravam. Desde aquele dia, David passara a perseguir a obra por todo o Brasil, como um investigador que persegue um criminoso, disposto a pagar qualquer preço pela publicação, apenas para ver a esposa feliz e livrar-se da culpa de não estar atento ao sumiço de um bem tão valioso.

Ainda era véspera das bodas de estanho quando tomou o avião em vez de ir trabalhar. Não havia tempo para esperar pela entrega dos Correios. Além disso, precisava certificar-se de que o livreiro não o enganaria. Podia se dar ao luxo de viajar pela manhã e reaparecer à noite sem ser notado, pois a esposa saía antes para a empresa de contabilidade na qual trabalhava e onde, quase sempre, o expediente se prolongava. Seus horários de almoço também não coincidiam. Ele, na agência de propaganda, fazia seu próprio horário, e almoçar não era uma de suas prioridades.

Enquanto aguardava a decolagem, não conteve um sorriso ao imaginar que seria bem mais lógico pegar carona na carroceria de um caminhão, carregando apenas uma mochila velha nas costas. Certamente o faria se pertencesse à geração beat. A senhora na poltrona ao lado cochilava e pendia a cabeça para o seu ombro. Bondoso, David nada fez. Permitiu que a sonolenta passageira fosse assim escorada até o seu destino.

Chamou um táxi, estendeu ao motorista o endereço anotado num retalho de papel e recostou-se no banco traseiro para apreciar a paisagem. Não estava preocupado. Conhecia a assinatura do escritor americano, saberia identificar uma falsificação. Pensou na esposa e em tudo que aprendeu com ela sobre literatura durante uma década inteira de convivência.

David conhecera Ângela logo no primeiro ano da faculdade. Cursaram jornalismo e contabilidade, respectivamente. E ele nunca mais deixou de amá-la, embora tivesse consciência de que a recíproca jamais alcançara a mesma medida. No ano passado, na comemoração de nove anos, deu a ela um buquê de rosas e um relógio. Ganhou de volta um pack com seis cuecas, as quais passou a usar diuturnamente, alternando as cores de acordo com seu humor. Desta vez, por mais modesto e impensado que fosse o presente de Ângela para ele, iria surpreendê-la com uma prova de amor incontestável, motivo de sua busca por uma cidade desconhecida, a bordo de um táxi velho e barulhento.

Pediu que o motorista aguardasse na porta do sebo enquanto fechava o negócio. Pagou com cartão de débito e recebeu a encomenda embrulhada em papel de seda, acomodada confortavelmente num estojo aveludado. Trocou breves palavras com o livreiro, um senhor franzino e corcunda, que se revelou grande conhecedor do poeta nova-iorquino. Recitaram, em uníssono, o único verso da obra que ambos sabiam de cor:

Braços estendidos,
mãos espalmadas contra o parapeito da janela,
ela olha para baixo,
pensa em Bartok, Van Gogh
e nas caricaturas do New Yorker.
Ela cai!
Levam-na embora com um Daily News no rosto,
e um lojista joga água quente na calçada.


Faltou pouco para aplaudirem-se mutuamente.

David voltou ao táxi e ao aeroporto e à sua cidade e ao seu apartamento. Anoitecia. Como previu, Ângela ainda não chegara. Tratou de esconder o presente no fundo de uma gaveta cheia de cacarecos, onde jamais seria encontrado, nem mesmo pela diarista, que espanava tudo superficialmente duas vezes por semana e lhe cobrava mais de cem reais a cada visita. Precisava trocar de faxineira. Não gostava de superficialidades em nenhum aspecto de sua vida, muito menos em relação à limpeza da casa.

Ângela irrompeu pela porta quase uma hora depois do marido. Largou a bolsa, descalçou os sapatos e perguntou o que havia para comer. David a beijou na boca e sugeriu que ela tomasse um banho enquanto ele providenciaria o jantar. Comeram em silêncio. Ela quis dormir cedo. Ele, no entanto, ficou alerta até o meio da madrugada, ansioso pela manhã seguinte. Sentia-se como uma criança que sabia exatamente a resposta para a indagação que o professor faria na prova oral, aplicada de surpresa, no meio da aula.

Quando o sol entrou pela janela do quarto, às seis e meia da manhã, David praticamente não tinha pregado o olho. Não sabia se corria para buscar o livro ou se esperava Ângela despertar. O que Gregory Corso faria em seu lugar?

Trouxe o pacote até a cama, escondeu-o debaixo de seu travesseiro. Ângela se remexeu, resmungou e, sem abrir os olhos, levantou e caminhou na direção do banheiro. Urinou, apertou a descarga, lavou as mãos e o rosto. Não compreendia muito bem o meio-sorriso do marido ao voltar para o quarto, contudo, num providencial lampejo, recordou a data. Apelou para a sinceridade, seguida de um abraço.

– Parabéns pelo nosso dia, amorzinho! Eu não comprei nada porque não tive tempo, você me perdoa, né?

Rápido como um voo de ida e volta ao interior de São Paulo, admirado da própria desfaçatez, ele respondeu:

– Ah, que bom... eu também não comprei nada e fiquei preocupado de você ficar puta comigo... parabéns pelo nosso dia, amorzão!

Como acontecia todas as manhãs, Ângela se aprontou e saiu antes dele para o escritório de contabilidade. David telefonou para a agência e avisou que chegaria mais tarde. Ligou o notebook ao mesmo tempo em que desembrulhava a raríssima edição de Gasolina & Lady Vestal, autografada pelo autor, com prefácio de Allen Ginsberg. Fez algumas fotos com o celular, inclusive da página assinada por Gregory Corso. Publicou o anúncio do livro de poesias em um site de vendas on-line, por uma pechincha equivalente a quatro meses de seu salário. Foda-se a geração beat, pensou sem remorso.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 21h11
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30/07/2015


JUSTIÇA DO TRABALHO


Altamiro era o redator da agência há mais de quinze anos. E na falta de pessoal mais experiente, acabara assumindo informalmente a coordenação do Departamento de Criação. Era ele também, desde o começo, logo nos primeiros meses a partir da fundação da empresa, que escolhia a trilha sonora do ambiente de trabalho. Atribuição que lhe dava ainda mais prazer do que escrever peças publicitárias.

Dono de um acervo particular invejável e de um gosto musical acima de qualquer suspeita, trazia seis CDs diferentes a cada dia, suficientes para oito ou nove horas de jornada. Sua equipe nunca tivera motivos para reclamação, pois o repertório, basicamente de rock, com variantes de blues e MPB, sempre fora impecável e adequado à rotina do setor. Até que lhe mandaram uma estagiária.

A agência ganhara uma nova conta, de um shopping center recém-inaugurado na cidade, e necessitava de mais mão de obra, porém, com o menor custo possível. A moça foi apresentada pelo Fagundes, o diretor de RH, e instalou-se numa pequena mesa com computador, entre a impressora laser colorida e o micro-system, para iniciar seu período de experiência de um mês, com possibilidade de efetivação.

Naquela manhã, Altamiro pusera para tocar um de seus discos prediletos: Rocket To Russia, dos Ramones, considerado pela crítica especializada um dos cem álbuns mais importantes do século vinte. A estagiária, concentrada em alterar o papel-de-parede de sua máquina (Hello Kitty no lugar do logotipo institucional), aproveitou um intervalo entre as faixas e dirigiu-se ao velho homem de propaganda:

– Não dá pra trocar de música, tio? Essa aí tá muito barulhenta.



Murmurinho no setor. Entreolharam-se o arte-finalista, a revisora, o redator-júnior, o diretor de arte e até a faxineira. Ele encarou a mocinha por uns trinta segundos ou mais, depois jogou a cabeça para trás, deu um suspiro, fez o sinal da cruz, levantou-se lentamente e, sem dizer palavra, cometeu a indesculpável heresia de interromper Here Today, Gone Tomorrow ainda na introdução.

Nos vinte e nove dias seguintes, o expediente seguiu em silêncio. Com inspirados textos de Altamiro e uma prestimosa contribuição da criativa novata, a agência entregou no prazo a campanha ao cliente. No final da trigésima manhã, baseado no relatório do responsável pelo Departamento de Criação, o Fagundes, diretor de RH, comunicou à estagiária que não precisariam mais de seus serviços.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 21h17
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09/03/2015


PRECIPITAÇÕES PLUVIOMÉTRICAS


Acordo com os pingos na vidraça. Chego perto da janela e levo ainda alguns minutos para decifrar a paisagem por detrás da tarde gris. Abro e fecho os olhos um par de vezes até despertar do cochilo fora de hora e lembrar exatamente onde estou e o que pretendo fazer da minha vida: em Joinville – a maior cidade de Santa Catarina, colonizada por alemães, suíços e noruegueses em 9 de março de 1851 – num quarto de hotel, à procura de paz ou de um apartamento virado para o sol nascente, o que me surgir primeiro.

Já devia ter visitado alguns imóveis e desbravado alguns bairros, assim como planejava (e não me mexi) conhecer o parque zoobotânico, a rua com palmeiras dos dois lados, o museu dos imigrantes, a escola de dança, a estação ferroviária, o campo de futebol, um ou outro museu, uma ou outra feira e o portal de exposições. A chuva, entretanto, não tem permitido. Às vezes desço para o café, motivado por uma nesga de céu azul, que logo se fecha e dá lugar ao aguaceiro e ao vento, antes mesmo do fim da primeira xícara.

No mapa do município, desdobrado em cima do criado-mudo faz dias, permanecem assinaladas as recomendações de parentes e amigos: duas pastelarias, shoppings, empadinhas de massa folhada, um mirante, uma baía com nome indígena, passeio de barco, uma fábrica de cerveja desativada, uma trilha ecológica, casas em estilo enxaimel e o Instituto Internacional Juarez Machado. Tempestades inoportunas e de humor variável, porém, fizeram com que eu não me aproximasse de nenhum desses pontos até agora.

Do pintor e escultor Juarez Machado, aliás, conheci por fotografia, antes de vir, uma obra batizada de Joinville, a "filha da chuva" por incompetência do sol, sobre a qual o próprio artista pondera que esta não é uma cidade de flores nem de bicicletas: é uma cidade de chuvas. Tendo a concordar com ele. Mar já não digo, mas quede sol? Como podem 600 mil pessoas, espargidas em mil e poucos quilômetros quadrados, conviver diuturnamente com borrascas de toda sorte, feito filme de suspense? Não uso guarda-chuva – apesar de apreciar mulheres de sombrinha armada – não gosto de me molhar nem de saltar poças d'água, então, consideraria viver onde o céu se abre apenas durante 15 dias a cada mês?

Pois quase encosto o rosto na vidraça, a fim de incorporar a paisagem úmida e cinzenta. Meu quarto de hotel tem a fragrância da última xícara de café que pedi antes de cochilar e que acabei não tomando. Calço o All Star, pego um casaco e desço para a rua, pouco me importando com o estado do tempo e das coisas. Não existe dilúvio que não se possa atravessar nem gota de orvalho que nunca se evapore. Vou ficando. Vou ficar. Encharcar meus pés na água da chuva com tudo, como quem não quer nada, está decidido.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 01h12
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30/12/2014


HOTEL HANNOVER


Dispensou o bellhop, não havia bagagem. Menos mal, ela pensou, pois o elevador estava desativado e teria de subir ao terceiro andar pelas escadas. Tudo o que precisava cabia na bolsa, como em todas as outras vezes. Admirava-se apenas do fato de haver um carregador de malas à disposição, uniformizado, ainda que ninguém passasse mais do que alguns momentos naquele lugar; uma noite, no máximo, para os que eram de fato viajantes. Devia ser o quinto ou o sexto encontro, sempre no mesmo quarto, no mesmo horário e, provavelmente, com a mesma duração. Ela chegava antes, preenchia uma ficha com nome falso e o aguardava. Não era ninguém, podia expor-se à vontade, ao contrário dele, porta-voz do governo, casado com uma apresentadora de telejornal. O hotel inteiro cheirava a mofo, dificultava-lhe manter a concentração e a excitação. Acabava mais preocupada com a poeira dos móveis ou com a pressão da água do chuveiro do que com a qualidade da própria lingerie. Naquele fim de tarde, aliás, um conjunto de renda um tanto puído e esgarçado.

Não tinha pressa, chegara realmente cedo. Por isso, subia lentamente as escadarias, revestidas de um carpete verde muito escuro, sem estampa. Apoiava-se nos corrimãos somente na passagem entre um piso e outro, quando contornava o vão central – de onde avistava não o térreo, mas uma parte do mezanino onde ofereciam o café da manhã – e continuava no sentido contrário. Em cada corredor, iluminado por uma minguada luz natural, logo abaixo de um grande espelho sem moldura, havia um aparador e, sobre ele, um filtro transparente com água, gelo e fatias de limão e abacaxi. Serviu-se de um gole antes de meter a chave na fechadura do quarto 302.



Sua primeira providência foi abrir uma fresta da janela. A paisagem não tinha nada de especial, dava para o pátio de um convento de freiras muito idosas, que quase nunca eram vistas ao ar livre. Em seguida, largou a bolsa, tirou o casaco de lãzinha e descalçou as sandálias. Conferiu se havia toalhas limpas perto da pia. Passou os olhos por todo o banheiro e mais uma vez por todo o cômodo, até retirar o matelassê e recostar-se na cama. Resolveu que permaneceria de vestido. O lusco-fusco que se encarregasse de disfarçar a falta de cor de sua calcinha e de seu sutiã quando ele quisesse despi-la. Fechou os olhos para imaginar a cena; a contragosto, acabou adormecendo.

Sonhou um sonho estranho. Depois de preencher o registro na recepção, deixava as roupas no balcão e subia nua as escadarias rumo ao terceiro andar, a fim de encontrar-se com um professor de matemática – que cheirava a Très Marchand – da época do ensino médio. Despertou assustada, tanto pela posição dos ponteiros do relógio na parede quanto pelo sonho sem sentido, a não ser por uma sua secreta atração por homens de guarda-pó. Sem sentido agora também lhe parecia aquele encontro. Meia hora havia se passado além do horário combinado, e transcorreria ainda mais rapidamente a meia hora seguinte. Escurecia. Apesar da angústia, não cogitava ligar para o número dele. Nenhuma promessa fora feita, não teria o que cobrar daquele seu amante de ocasião, de quem, após poucos encontros, já preferia a conversa ao desempenho. Levantou-se. Fez o processo inverso dessa vez: estendeu a colcha, lavou e enxugou o rosto numa toalha limpa, enfiou todas as roupas na bolsa e fechou a janela. Desceu tão lentamente quanto subira noventa minutos atrás. Nua.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 02h01
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16/11/2014


SUGESTÃO DE LEITURA


Ainda não sabe quem eu sou?
Nunca leu nenhuma das minhas crônicas?
Não sabe se compra ou não compra meu livro de estreia?

Pois darei uma força: aí vão as primeira páginas de "Das Coisas Simples da Vida", para você ter uma vaga ideia...

http://mais.uol.com.br/view/15277325



A 1ª edição está quase esgotada, mas ainda há exemplares em:
http://www.buscape.com.br/9788581083780.html

 

Escrito por Alessandro Dogman às 13h04
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15/10/2014


LÍNGUA NOS DENTES


O guri estava sempre na calçada em frente ao nosso prédio. Minha mãe entrava ou saía, sozinha ou com os filhos – eu e meu irmão –, e ele fazia plantão. Pela manhã, à tarde e até certa hora da noite, perambulava pela quadra, brincava solitário com algum carrinho de plástico esquecido ou simplesmente chutava pedregulhos de um lado a outro da rua.

Regulava em idade conosco, devia ter uns oito ou nove anos, mas era mais magro e franzino, queimado de sol, cabelos sem corte. Reparávamos no short desbotado e na camiseta listrada com alguns furos, usados diuturnamente. Muito simpático, sorria sempre, porém, nunca dizia nada. "Não tens mãe? Não tens família?", mamãe perguntava e ele não respondia.

Quando íamos à padaria, voltávamos com alguns pães a mais, às vezes com um sonho ou bolo. Nos revezávamos para estender o embrulho até que seus dedinhos de unhas sujas agarrassem o presente com firmeza. Mostrava os dentes e meneava a cabeça, sem dizer palavra. "Acho que ele é mudo", eu arriscava. E minha mãe me mandava calar a boca.

Na semana em que o general Figueiredo visitava a cidade, o guri sumiu por uns dias. Isso era novembro de 1979. Havia tropas e policiais à beça nas ruas, estudantes em marcha e um clima de iminente revolução. Achamos que poderia ter sido levado para algum abrigo ou que talvez tivesse um lar como o nosso, com mãe, irmãos, comida farta e boas roupas.

Depois reapareceu. Quando saí do prédio para comprar um cachorro-quente na praça, cruzei com ele. Comi o meu ao lado do carrinho, numa esquina próxima, e pedi outro para viagem. Também separamos as roupas que não usávamos mais e as repassamos ao moleque. Na manhã seguinte, já se apresentava com calção menos puído e camiseta sem rasgos.

Em conferência, no quarto do meu irmão menor, ficou decidido que convidaríamos o mascote para subir e tomar um café conosco, à mesa, como se fizesse parte da família. Minha mãe voltava do supermercado e fez o alerta: "Amanhã, às cinco da tarde, venho te buscar pra tomar um café lá em cima com a gente". Ele sorriu de orelha a orelha, mudo como sempre.

No fim do dia seguinte, o piá estava sentado nos degraus da portaria. Banho tomado, cabelos penteados, calça jeans e uma camisa quase nova. Ao lado dele, mais quatro crianças, de idades e cores variadas, todas igualmente arrumadinhas, prontas para fazer uma refeição em nossa casa. "Eu convidei só tu, seu linguarudo!", foi como mamãe o dispensou.

Tivemos que chamar a polícia a certa altura. Aquela pequena gangue de esfomeados passou a atirar pedras nas janelas do apartamento, que não ficava num andar alto. Ainda rondaram a vizinhança por um tempo, até sumirem de vez, o guri entre eles. Nós também acabamos mudando de bairro. E nunca mais oferecemos café a nenhum desconhecido.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 00h07
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14/09/2014


TRÊS CHEGADAS


Vinha no avião pensando sobre a chegada. Deixara Salvador sem remorso, disposta a mudar de vida, de bairro, de cidade, de estado. E contava apenas com o homem que a esperava em Curitiba. Estaria mesmo esperando? Duvidou por um instante, ainda que não pudesse fazer mais nada. Pedira demissão do emprego, doara algumas roupas, ofendera pela última vez cada um dos muitos parentes dos quais não gostava e despedira-se definitivamente de alguns poucos que não desgostava totalmente. Agora, passava ilesa por uma turbulência leve, enquanto catava os farelos no fundo do saco de batatinhas fritas oferecido pela companhia aérea.

Recolheu a bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Abriu a bolsa e ligou o celular. Distraiu-se verificando se havia algum recado na caixa de mensagens e tropeçou na barra da própria saia. Tombou de joelhos, chocando o rosto contra a catraca de controle de saída. Um baque agudo, dolorido. Não imaginava de onde vinha o sangue que lhe escorria pelo nariz e não tinha certeza se os dois dentes caídos no piso eram seus ou se já estavam ali antes. Perdeu a consciência. E quando voltou a si, viu-se amarrada a uma maca, que deslizava pelo saguão na direção da saída de emergência, guiada por quatro socorristas uniformizados. Continuava tonta, a ponto de esquecer onde estava e o que viera fazer naquele lugar. O homem permanecia na sala de espera, conforme combinado. Depois de meia hora, entretando, concluiu que ela não embarcara na capital baiana, que desistira da aventura sem ao menos tê-lo conhecido. Partiu desolado.

Mentira.

Nem pensou na bagagem, uma mala média somente, que passeava solitária pela esteira. Esgueirou-se por uma saída lateral, a procura de uma passagem alternativa ao portão de desembarque. Queria ver com que expressão ele a esperava. Aliás, queria ver as feições do homem ao vivo, pois conheciam-se apenas por fotografias. Em meio às suas divagações, perdeu-se no labirinto de corredores. Não fazia ideia de como fora desembocar no estacionamento, pouco iluminado àquela hora da noite. Tentou voltar pelo mesmo caminho, mas foi abordada por dois estranhos. Um deles apontou-lhe uma arma, enquanto o outro já a asfixiava com um lenço embebido em clorofórmio. Inconsciente, foi arrastada e jogada no porta-malas de um carro. O homem com o qual pretendia se encontrar permanecia na sala de espera. Depois de trinta minutos, porém, desistiu de aguardar. Concluiu que ela optara por não embarcar. E nunca mais soube de seu paradeiro.

Mentira.

Recolheu sua bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Nem cogitou abrir a bolsa e tirar o celular do modo "avião". Queria apenas que ele a estivesse esperando, talvez com um buquê de flores-do-campo nas mãos, para marcar seu renascimento em terras paranaenses. Olhou de um lado e outro do saguão, até reconhecer seu homem, exatamente como aquele que aparecia nas fotos trocadas ao longo de meses. Não havia flores, mas havia um sorriso em seu rosto, e isso bastou para ela. Quando pararam frente a frente, foi ele que não se conteve:

– Caralhos me mordam! Você é muito mais bonita pessoalmente.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 18h35
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07/09/2014


A PROCURA


Escavávamos animadamente o chão em busca de trufas. Apesar de nunca termos visto uma de perto, sabíamos que aquele era o lugar indicado pelo apresentador de TV, no documentário ao qual assistíramos ontem à noite. Em nosso pequeno grupo, todos se animaram quando ouviram em alto e bom som o nome do vilarejo. Nas colinas arredondadas de Formosa, havia trufas. Não as caríssimas trufas brancas, nada disso, somente trufas negras, mas havia e pronto.

Não estava frio para a época do ano. Da minha testa brotavam algumas gotas de suor, por causa do esforço. Os outros esbravejavam cada vez que faziam mais um buraco inútil. Procurávamos uma massa disforme, localizada entre vinte e quarenta centímetros de profundidade no solo úmido, de odor característico e gosto desconhecido para nós. Ninguém ainda tirara a sorte grande, e talvez, justamente por isso, não queríamos desistir. Era divertido, acima de tudo.

Passadas algumas horas, sentei-me a uma pedra para comer azedinhas. Era tudo que a terra tinha me dado até ali. Semicerrando os olhos, notei que, ao longe, um homem vestido de branco, franzino, consideravelmente idoso, acompanhava nossa busca sem lógica. Não era dali nem da cidade vizinha, certamente, senão eu o teria reconhecido. Quando percebeu que fora descoberto, veio em minha direção, caminhando lenta e delicadamente pelo pasto muito verde.

O estranho sentou-se ao meu lado e, sem nenhuma cerimônia, perguntou:

– Não é muito bom viver nessa agonia, não é?

De que agonia estaria falando? Da agonia de procurar obsessivamente alguma coisa e jamais encontrar? Da agonia de viver em uma cidade esquecida por Deus? Observei meus colegas, que, entre a curiosidade e o espanto, também me observavam. Pude sentir o cheiro de mofo nas roupas do velho. Ele tocou meu ombro de leve, como um pai a consolar um filho, e, com a outra mão espalmada, me estendeu uma enorme trufa negra, lavada, pronta para consumo.

– Tome, experimente...
– Mas o que é isso, meu senhor? Eu nem o conheço!
– É uma trufa, você sabe... aqui em Formosa elas nascem aos montes, não é preciso nem escavar a terra para encontrá-las... são divinas!

Preocupado com o meu comportamento, o grupo de amigos não demorou a se reunir ao redor da pedra onde eu permanecia sentado. Uns apenas me olhavam, receosos, outros cochichavam entre si. Até que um deles exclamou:

– Você encontrou uma trufa!
– Bem...
– Devia ter avisado em vez de ficar falando sozinho que nem um maluco.

No alto de uma colina que dava para a mata fechada, onde a vista ainda podia alcançar com nitidez, distingui novamente o homem de branco, muito idoso e franzino, que parecia ter estado ao meu lado há poucos minutos. Eu mesmo já não tinha certeza. Ele segurava uma trufa, mais ou menos do tamanho daquela com a qual me presenteara. Mordeu-a com gosto, mastigou pausadamente, revirou os olhinhos e desapareceu em algum ponto da paisagem.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 18h14
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08/08/2014


A BIBLIOTECÁRIA


Era um convite de casamento. E o fato de não ter remetente nem carimbo de postagem significava que fora deixado ali pessoalmente. Da inicial lentidão, Paulina passou a acelerar o processo de abertura do envelope, rasgando-o completamente. Ao reconhecer o nome e o sobrenome de um de seus ex-namorados, o único por quem fora verdadeiramente apaixonada, lembrou-se de uma canção de Reginaldo Rossi e não conteve as lágrimas.

Com as lentes dos óculos embaçadas pelo choro, seguiu para o trabalho. Pelo caminho, ia lendo e relendo todos os dados impressos em papel vergê no convite humilde, do nome dos pais da noiva ao endereço da capela em que a cerimônia seria realizada, no município de Schroeder, ao norte da pacata Jaraguá do Sul do final da década de noventa. A distância até a Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa, no centro da cidade, parecia ter dobrado naquela manhã de segunda-feira. Mesmo assim, Paulina chegou no horário.

Durante todo o expediente – e no restante da semana –, classificou livros e revistas com os códigos invertidos, além de guardá-los na seção errada. Confundiu, em diversas ocasiões, a Classificação Facetada, na qual os documentos mais complexos sofrem sucessivos desdobramentos a fim de facilitar-lhes a compreensão e o arquivamento, com a Classificação Decimal Dewey (CDD), bem mais simples, utilizada para agilizar a localização de material em qualquer parte do acervo. Nas prateleiras organizadas recentemente pela bibliotecária, tornaram-se comuns os encontros de Carl Sagan e Carl Jung no espaço destinado à Literatura Oriental ou de Cora Coralina e Cora Rónai no estande dos semanários.



Apesar da paixão com que costumava se entregar ao ofício, não conseguia parar de pensar no grande amor de sua vida nem na proximidade da data do casamento. O homem a quem ela dedicara quase cinco anos da adolescência e da juventude ia se casar com uma desconhecida em menos de dez dias.

Conheceram-se por acaso. Ele, ainda muito novo, havia perdido quase toda a visão em decorrência de uma retinite pigmentosa, doença ocular degenerativa de acentuado caráter hereditário. Paulina o avistou pela primeira vez próximo a uma construção tentando ler um muro de chapisco, imaginando tratar-se de um outdoor em braile. Encantou-se imediatamente com sua ingenuidade e com sua delicadeza. Após o terceiro ou quarto encontro, ele já era incapaz de ir a algum lugar sem ela ou de criticar sua maneira bisonha de se vestir.

O fim do romance foi inesperado, porém, previsível. Enquanto Paulina estava de mudança para Florianópolis, onde cursaria Biblioteconomia na UFSC, ele decidiu seguir sua rotina como instrutor de uma autoescola no próspero município de Corupá, maior produtor de bananas de Santa Catarina. Não houve despedida nem juras de amor. Nem nunca mais deram notícias um ao outro.

Agora, na véspera do matrimônio para o qual fora convidada, estava agitada. Preferia não ter sido lembrada pelos noivos. Perdida num turbilhão de pensamentos desconexos, não conseguiu dormir durante toda a noite de sexta-feira. Precisava libertar-se do passado, precisava fazer com que aquele sábado de maio fosse apenas mais um sábado sem importância.

Ao despontar dos primeiros raios de sol, finalmente, tinha um plano. Perfeito, infalível. Paulina levantou-se, tomou um banho, vestiu sua melhor roupa, contou as notas de dinheiro na carteira e saiu, decidida a fazer o que qualquer mulher faria em seu lugar. Primeiro cortou os cabelos bem curtos; depois comprou quatro pares de sapatos no crediário. A plástica no nariz aquilino, infelizmente, teria que esperar mais um pouco. Talvez até a sua próxima licença-prêmio.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 17h21
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02/08/2014


O ÓCIO OCIOSO


Foi por acaso que entrei em férias no mês de julho. Trinta dias inteirinhos para não fazer nada, como nos tempos do colégio. Mas colégio de antigamente, que fique claro, porque hoje a folga está cada vez menor. Na escolinha do bairro onde moro, por exemplo, os alunos passam somente duas semanas sem aulas. No verão, mais ou menos entre a Proclamação da República e o Carnaval, no lugar dos quase três meses aos quais fui acostumado, a molecada ganha apenas trinta e poucos dias, sem direito a esperar pelo fim da estação ou pela Quarta-Feira de Cinzas, o que é lamentável e preocupante.

O Réveillon vai chegando e o piá ainda está lá: em recuperação, em prova final, em prova de recuperação da prova final. Acabam-se as festas de fim de ano – no melhor momento para se namorar, fazer amigos, viajar, dormir até tarde – e o pobre adolescente vai fazer intercâmbio, curso de férias, reforço de inglês e escolinha de futebol, além de cuidar dos irmãos menores. Fevereiro e o ano letivo começam praticamente juntos, como se uma etapa da vida fosse antecipada, comparável àquelas noites em que a gente chega em casa bêbado depois das três da madrugada e acorda às seis e meia para trabalhar.

Ainda não entendi por que, ao longo de três décadas, as escolas passaram a ocupar o tempo livre de seus alunos com atividades extraclasse e um maior número de aulas no calendário. Que diferença fará, ao futuro de qualquer estudante, aprender a distinguir força centrípeta de força centrífuga, fazer a análise sintática de uma oração ou saber calcular a concentração molar de uma solução? Diminuir as férias de verão e as férias de julho, na minha modesta opinião, equivale a substituir o colesterol bom pelo colesterol ruim na corrente sanguínea de um paciente com problemas cardiovasculares.

Tudo bem que os pais contemporâneos queiram manter a maior distância possível de seus filhos e que as famílias já não se reúnam ao redor da mesa para o jantar, mas é que a falta de tempo ocioso – não necessariamente criativo – acaba comprometendo o futuro das crianças e dos jovens. A cultura da otimização do tempo, no mundo adulto, é o que hoje obriga os shoppings e supermercados a abrirem as portas aos domingos, os empregados a trabalharem doze horas por dia e a descansar apenas cinco horas por noite, e que a busca pelo primeiro emprego comece na puberdade.

A obsessão por "mostrar serviço", que agora vem desde as primeiras séries do colegial, é a maior responsável pelas cretiníssimas doenças da modernidade, como o estresse, a depressão, a síndrome do pânico, os cabelos brancos, o tédio, a preguiça, a caspa e a ausência de vergonha na cara. A escassez dos momentos em que podemos optar por fazer alguma coisa ou não fazer absolutamente nada (férias, feriados, fins de semana) não nos tem permitido absorver informações, pensar na vida, valorizar refeições, relações e relacionamentos ou, simplesmente, tirar uma soneca fora de hora.

Ficar à toa, de papo para o ar, coçar o saco, morcegar, tanto faz. Não há demérito em não se fazer nada de vez em quando. Cada um, desde pequeno, merece ser dono do próprio tempo e gastá-lo como bem entender, sem pressão da família, da escola, da sociedade, de quem quer que seja. E quanto mais tempo sobrar, melhor. Ao contrário do que pregam os gananciosos, os hiperativos, os educadores, os pais sem vocação e os livros de autoajuda, felicidade mesmo é tomar café da manhã em casa, ir à praia num dia útil, acompanhar o pôr do sol e, claro, ter sempre um tubo de Hipoglós à mão.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 21h40
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27/07/2014


CALLING DR. LOVE


Apesar de tudo, creio que ainda não sei muito sobre amor. Mesmo tendo vivido mais casos e romances, passado por mais experiências, atravessado mais décadas do que a maioria das pessoas; mesmo que eu conheça mais palavras para expressar sentimentos – e saiba expressá-los de fato – além da média vocabular da maioria das pessoas; ainda assim, mesmo que vários me considerem um ás no amor, só sei que nada sei.

Digo isso porque, dias atrás, recebi um e-mail de uma leitora que me pedia conselhos sobre relacionamentos e suas várias variáveis. Ela começou a missiva digital com uma pergunta bem simples, bem direta: o amor existe? E eu, obviamente, entrei em pânico. Achei melhor não mentir, apenas florear, aumentar, disfarçar e, em último caso, inventar.

O que dizer quando sempre se gostou mais do que se foi gostado? A única certeza, tanto na visão de quem entra quanto na visão de quem sai, é que o amor existe, sim. E se manifesta das formas mais inusitadas: como em um posto de pedágio, quando você pede moedas à moça ao seu lado, no banco do carona; como em um passeio público, ao avistar uma conhecida – por quem você nutria uma discretíssima simpatia – vindo no sentido contrário; ou como na festa junina da escola do bairro, na qual a professora (que também é sua vizinha) aparece vestida de prenda e coordena com pulso firme a barraca do beijo.

Desconsiderando a parte da fantasia, o normal, na minha modesta opinião, é a gente amar solitária, às vezes platonicamente, e sofrer e se frustrar um monte. Vá lá, cedo ou tarde as coisas se encaixam e alguém nos corresponderá quase na mesma medida. Entretanto, como isso pode ocorrer uma única vez na vida, é preciso estar atento e forte. Eu chutaria que o amor verdadeiro surge entre 25 e 35 anos de idade, mais ou menos. Antes disso é entusiasmo, e depois, quando passamos a nos contentar com pouco, é carência. Em resumo: o amor é unilateral. Reciprocidade ajuda, mas a regra é não existir, lamento.

E atração, paixão, química? Química já é outra coisa, não tem nada a ver com amor. Química é um encaixe de pele, totalmente físico. Amor é um sentimento cerebral. Daí as meninas acharem que ainda amam os primeiros namorados ou os homens fugirem com suas amantes. Após uns meses, quando o sexo fica monótono, não sobra nadica de nada.

Importante mesmo é juntar subsídios para comparação. Só dá para saber se amávamos para valer se, depois do terceiro ou quarto romance, continuamos com a impressão de que o primeiro era disparado o melhor de todos. Claro, sempre levando em conta que amamos sozinhos, por nossa conta e risco. Aquele amor antigo também pode considerar, depois de três ou quatro amores, que fomos uma grandíssima perda de tempo. Cruel, não?

 

Escrito por Alessandro Dogman às 18h37
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20/07/2014


SORTEIO DOS SORTEIOS


Alô, estimados leitores e leitoras!


Que tal concorrer a dois exemplares do meu livro "Das Coisas Simples da Vida", hein? A promoção é uma parceria minha com o Poesia & Música, meu Twitter preferido. As regras estão aí abaixo, e, no final, dois sortudos receberão pelos Correios a obra de estreia desse pobre cronista. Aliás, bota pobre nisso!

1.
O primeiro requisito é ser seguidor dos dois perfis no Twitter, tanto do @Poesia_e_Música quanto do @AleDogman.

2. Depois, basta responder à pergunta QUE COISAS SIMPLES DA SUA VIDA DARIAM UMA CRÔNICA? usando a hashtag #DasCoisasSimplesDaVida até o dia 26 de julho, às 23h59.

3. Os autores das melhores respostas serão retuitados por um dos dois perfis e, assim, participarão do sorteio final. *Só concorrem os residentes no Brasil.

4. O resultado sai no 27 de julho, às 21h, sem direito a recurso, quando os vencedores serão pegos de surpresa e poderão comemorar com a família.

Está compreendido? É claro que aqueles que não ganharem a promoção, a qualquer tempo, poderão adquirir um exemplar de "Das Coisas Simples da Vida" nas melhores livrarias on-line. Taí o link...

Um abraço e boa sorte a todos!



*Atualização em 27/07/2014: As vencedoras da promoção foram @femorbeck (Praia Grande/SP) e @graceramalho1 (Fortaleza/CE), parabéns!

 

Escrito por Alessandro Dogman às 20h22
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13/07/2014


TEXTOS BASTARDOS


A LENDA
foi uma crônica que eu escrevi em homenagem ao Mauro Castro, do blog Táxi Tramas, em março de 2009. O taxista mais famoso do Brasil me serviu de inspiração porque sempre conseguiu dizer muito em poucas palavras, o que é a maior aspiração de qualquer cronista. Na época, eu não perdia nenhuma postagem, então aproveitei a história da loira do banheiro, que circulava com algum sucesso na internet, e fiz uma adaptação meio nonsense para presenteá-lo. Hoje o Mauro já tem três livros publicados, e eu apenas um. Bah! http://zip.net/bpsV9K

A BIBLIOTECÁRIA saiu de um desafio, em setembro de 2008. A Luciana Maria, do blog Perfume de Afrodite, escreveu a primeira parte de um enredo e me pediu que inventasse um final, mais ou menos como as professoras de Artes faziam com a gente na escola, quando rabiscavam uma folha e tínhamos que desenhar a partir dali. Ao saber que a personagem Paulina recebia um envelope em sua caixa de correspondência, optei pelo humor e pelo otimismo para me colocar no lugar das mulheres e adivinhar o que deveria se passar com a moça. http://zip.net/bdsV4y

CORAÇÃO DISLÉXICO
é recente, está no meu livro Das Coisas Simples da Vida, lançado em abril deste ano. A Luciana Silva, do blog Sem-Spoiler, publicou com exclusividade (como parte da série "Autores e seus animais de estimação") esta singela e pessimista crônica, na qual resgato alguns momentos do meu relacionamento com a minha falecida gata, a Muriel, para refletir sobre vários aspectos da vida dos homens e dos felinos. O título vem da música Dislexic Heart, do Paul Westerberg, caso não tenham reparado. Boa leitura a todos! http://zip.net/bpsV9L

 

Escrito por Alessandro Dogman às 16h58
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05/07/2014


DA FRUTIFICAÇÃO DOS FURTOS FURTIVOS


Roubaram o meu capacho. E não me refiro àquele assistente puxa-saco que recebeu uma proposta irrecusável de outra empresa nem àquela estagiária subserviente que se deixou seduzir pelo charuto cubano do aspone da diretoria, não. Roubaram mesmo foi o tapetinho que fica do lado de fora da porta de entrada do meu apartamento.

Um caso muito estranho: cheguei do trabalho e ele, que é peludo, com formato e estampa de gatinho, não estava no lugar de sempre. Olhei primeiro pela janela do corredor, afinal, podia ter voado lá embaixo, como aconteceu há pouco tempo com o tapete de pele de urso de uma senhora do andar de cima. Olhei também na lixeira do prédio. Procurei nas portas dos outros apartamentos, pois a faxineira do período vespertino, já um tanto idosa, seria bem capaz de trocar os capachos. Mas não, nada, "sumiu, desapareceu, escafedeu-se". A velhinha não viu, o porteiro não viu, o zelador não viu, o síndico não viu.

Claro que ninguém viu, estão todos mancomunados com o provável ladrão de adornos de piso que, por sua vez, deve servir a uma rede internacional de tráfico de pelegos com motivos animais.



Na minha lista de suspeitos, em avaliação preliminar, figuram as gêmeas do fim do corredor, sobretudo a mais antipática; o padre Parkinson, com menos chance, pois se ele pegasse o capacho ao meio-dia eu ainda o alcançaria antes das seis da tarde; a estudante solitária e tímida, provavelmente como forma de chamar a atenção antes de apelar para o suicídio; o pai solteiro, tendo como cúmplice sua filhinha com cabelo de Playmobil, porque a menina deve ter achado o tapete bonitinho; e, ainda, o velho pedófilo da porta ao lado, que pode tê-lo oferecido como mimo a uma de suas vítimas, dizendo carinhosamente: "pega aqui no gatinho peludo do vovô" ou "bote fé no velhinho, o velhinho é demais". O fato é que todos tinham um motivo razoável para cometer o crime.

Agora, de cabeça fria, e passadas algumas horas da lamentável ocorrência, já não penso mais em denunciar nem em dar porrada no(a) meliante que subtraiu o tapetinho da minha porta. Decidi que não vale a pena perder o sono por uma caganificância dessas. Amanhã compro outro capacho e pronto, também em formato especial, com desenho de bichinho, mais atraente que o antigo.

Por precaução, o próximo ficará colado ao chão com Superbonder, ligado a um sensor de movimento e a uma câmera fotográfica embutida no olho-mágico. Eu sempre fui assim, desapegado das coisas materiais.

 

Escrito por Alessandro Dogman às 20h40
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22/06/2014


LETRA & MÚSICA


Era um casal aficionado da MPB e do pop-rock nacional. Sentados frente a frente, na pequena mesa redonda de um barzinho com som ao vivo, conversavam pela última vez antes da separação.

– Sei que você fez os seus castelos e sonhou ser salva do dragão.
– Eu apenas queria que você soubesse que esta menina hoje é uma mulher.
– Eu quero é viver em paz! Por favor, me beije a boca...
– Se você não entende, não vê...
– Eu quis dizer, você não quis escutar.
– O que me importa essa tristeza em seu olhar?
– Não tem jeito mesmo, não tem dó no peito, não tem nem talvez.
– Não pense na separação... não despedace o coração...
That’s over, baby! Freud explica.
– Agora que faço eu da vida sem você?
– Não me procure mais... assim será melhor, meu bem.
– Nós somos medo e desejo, somos feitos de silêncio e sons.
– Desculpe o auê, eu não queria magoar você.
– Eu nem sonhava te amar desse jeito.
– A emoção acabou...
– O que é que há? O que é que tá se passando com essa cabeça?
– Nada, nada, nada, nada!
– Nunca se esqueça, nem um segundo, eu tenho o amor maior do mundo.
– Bem que se quis, depois de tudo, ainda ser feliz.
– Nada mais vai me ferir, eu já me acostumei.
– É isso aí.
– Então vem cá, me dá sua língua...

Beijaram-se despudoradamente durante alguns minutos. O que ela imaginou ser uma reconciliação, para ele era uma despedida. Pediram mais dois chopes, uma porção de fritas e retomaram o diálogo.

– Desejo que você tenha a quem amar.
– Mas não quero deixá-lo na mão nem sozinho no escuro.
I don’t want to stay here, I wanna to go back to Bahia.
– Eu prefiro as curvas da estrada de Santos.
– Devia ter me importado menos com problemas pequenos...
– Eu vejo flores em você!
– Pra ser sincero, não espero de você mais do que educação.
– Prefiro ser essa metamorfose ambulante...
– Eu tô voltando pra casa.
– Decida o que é bom pra você.
– Ah, mas o que você espera de mim...
– Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu.


Em: "Das Coisas Simples da Vida" (Giostri, 2014)


Escrito por Alessandro Dogman às 16h35
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31/05/2014


BOM DIA, CACHORRÃO!


Entrevista minha ao programa "Bom Dia, Cidadão", apresentado pelo jornalista Henrique Santos, na Rádio AL, emissora da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, no dia 19 de maio de 2014. Em pauta, entre outros assuntos literários, o meu livro de crônicas "Das Coisas Simples da Vida". Ouça e chore com a magniloquência deste pobre escritor. Aliás, bota pobre nisso!

https://soundcloud.com/aledogman/dogman-no-bom-dia-cidadao

 

Escrito por Alessandro Dogman às 20h02
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21/05/2014


MIQUINHOS (2)


Quando eu acho que já recordei todos os pequenos micos que cometi na infância, sempre acabo lembrando de mais algum. Não que sejam melhores ou piores do que outros mais recorrentes, apenas estavam muito bem guardados nos anais empoeirados da minha memória, e só voltam à tona quando me acontece uma situação semelhante ou quando não tenho mesmo coisa melhor para resgatar do passado de outrora.

Houve uma época, no coleginho de freiras onde eu estudava, em que os banheiros não eram totalmente separados para meninos e meninas. A pia era comum a ambos, mas havia duas portas, uma azul e uma cor-de-rosa, cada uma com uma privada. No dia em que fui acometido de uma baita dor de barriga, desafortunadamente, o compartimento masculino estava ocupado. Foi de dentro da "casinha" rosada que ouvi o banheiro se encher de meninas, todas fazendo fila para usar o vaso sanitário a elas destinado.

Alguns anos adiante, porém, ainda no curso primário, em determinado momento do final da década de setenta, era moda os meninos colecionarem figurinhas. Tendo preenchido os álbuns do Super-Homem e do King-Kong, chegara a vez dos Futebol Cards, uns cromos com fotos de jogadores do Campeonato Brasileiro que vinham dentro da embalagem do chiclete Ping-Pong. Eu jamais largava as minhas figurinhas, ao ponto de, com medo de ser roubado, guardá-las dentro da cueca durante a aula de Educação Física. Numa tarde de vento forte, logo no aquecimento, no primeiro polichinelo, voaram todas pelo pátio a fora. Não sobrou nem umazinha para contar a história.

Depois da escola, no playground do meu prédio, a pirralhada recém-apresentada à pré-adolescência costumava brincar de "casamento atrás da porta", um antigo jogo no qual um dos participantes, com os olhos vendados, escolhia, entre os restantes, alguém para dar um aperto de mão, um abraço, um beijo no rosto ou um beijo na boca. A menina mais velha era sempre a mais cobiçada por todos. Na minha vez, quando tive a sorte de ser escolhido, ela foi taxativa: – Vai ser no rosto, porque eu não beijo menino de aparelho.

Antes de entrar em definitivo na vida adulta, ainda aprontei mais uma, dessa vez no colégio de padres em que concluí meus estudos. Um professor faltou e não havia ninguém para substituí-lo, então fomos dispensados até a aula seguinte, incluindo o recreio. As meninas foram jogar vôlei; os meninos, futebol. Como eu usava um Rainha Yatch, extinto modelo de tênis sem cadarço que voava longe cada vez que eu dava um chute na bola, troquei o pé direito pelo All Star de um amigo canhoto. Mais tarde, após quarenta minutos de pelada, soou o sinal, anunciando a hora do intervalo. A turma toda debandou, cada um para um lado. Eu também, usando um pé de cada tênis.

Bem, acho que finalmente acabou o meu estoque de trapalhadas. A inocência se foi. Agora preciso, portanto, alçar voos mais altos no quesito "cagadas memoráveis". Sei que tenho evoluído bastante desde que saí da escola, só que, de lá para cá, não tenho feito nada que mereça ser contado numa crônica, muito pelo contrário. As merdas que cometo sem parar, mesmo as mais engraçadinhas, são de cortar os pulsos.

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Escrito por Alessandro Dogman às 20h41
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12/05/2014


MIQUINHOS


Alguns episódios da minha infância eu não consigo esquecer. Nem sei se dá para classificá-los de "micos", visto que criança faz – ou fazia, antigamente – quase tudo sem querer, na maior inocência. Então, prefiro achar que foram apenas "miquinhos", pequenas histórias que, no fim das contas, não provocaram maiores danos materiais ou psicológicos, nem a mim nem a outrem.

Cronologicamente, a primeira que aprontei foi ainda na pré-escola. No coleginho de freiras em que eu estudava, os banheiros ficavam dentro das salas de aula, como se fossem suítes. Faltando dois minutos para o recreio, precisei fazer xixi. Quando voltei, com mais vontade de brincar no parquinho do que de comer o meu lanche, não encontrei ninguém. A turma toda havia saído para o intervalo e a professora, que em nenhum momento sentira a minha falta, havia chaveado a porta.

No ano seguinte, já no primário, o uniforme mudara. Em vez de camiseta vermelha e jardineira, passamos a usar camisa branca e calça azul-marinho. Era desconfortável, mas não o suficiente para me impedir de subir na amoreira que ficava nos fundos do quintal da escola, antes que meus pais viessem me buscar. A noviça que cuidava do portão sempre perguntava se eu andava roubando amoras, mas eu sempre negava, apesar da camisa manchada de roxo e das folhas grudadas nos cabelos.

Na quarta série, aconteceram duas tragédias, praticamente na mesma época. Para impressionar uma menina que estudava na mesma turma, ingressei na banda da escola. Estava tudo acertado para eu tocar bumbo nos desfiles do dia 7 de setembro. Logo no primeiro ensaio, quando agachei para pegar meu instrumento, a calça de tergal descosturou bem na bunda, do cós ao gavião. Tive que ensaiar uma tarde inteira com o casaco do uniforme enrolado na cintura.

No mesmo ano, ainda apaixonado pela menina que me fizera entrar para a fanfarra do colégio, resolvi demonstrar mais claramente todo o amor que eu sentia por ela, acumulado em menos de uma década de vida. Arranquei um pedacinho de uma das folhas do caderno, escrevi em garranchos um "gosto muito de você", dobrei bem e estendi o papelzinho à minha minimusa. Ela abriu, leu, releu, suspirou e não teve dúvidas: levantou de sua carteira e correu para entregar o bilhete à professora.

A última da qual me lembro, na passagem para a pré-adolescência, aconteceu nas férias de verão. Minha mãe pegou a calça do meu agasalho de Educação Física e transformou numa bermuda. Cortou as duas pernas na altura do joelho e refez a bainha. Orgulhoso, vesti a nova peça e saí para uma volta pelo bairro, onde absolutamente todos que cruzaram o meu caminho olharam para o extravagante calção. Devem ter reparado, antes de mim, que uma perna era bem mais curta do que a outra.

Hoje em dia, eu já não pago mais micos. Na verdade, o que eu cometo são incomensuráveis cagadas, bem diferentes dos meus incidentes de infância. As consequências são quase sempre irreversíveis e, na maioria das vezes, geram algum tipo de ônus para o meu ânus. Além disso, não fazem rir como as estripulias da época de escola. Essas eu nem conto, pois são de chorar.

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Escrito por Alessandro Dogman às 23h41
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05/05/2014


DO ABASTECIMENTO DE GÁS NOS CONDOMÍNIOS


O Oscarzinho não saía lá de casa. Como o nosso apartamento ficava no caminho da escola e ele não tinha irmãos para brincar, dava sempre um jeito de chegar mais cedo, só para matar um tempinho antes de o primeiro sinal bater. E mesmo depois das aulas, nos dias em que havia Educação Física ou reunião do grêmio estudantil, aproveitava para filar um almoço e esticar a diversão até o fim da tarde. Bons tempos aqueles da 8ª série do Colégio Catarinense, na primeira metade dos anos oitenta.

Mamãe vivia de cabelos em pé quando o Oscarzinho estava por perto. Sem nenhuma habilidade para o futebol, por exemplo, toda vez que chutava uma bola nas nossas disputas de "gol a gol" no corredor, era batata que ele acertaria uma estatueta, um quadro, um porta-retratos ou um abajur. Por isso, tínhamos sempre Superbonder à mão, para socorrê-lo nos momentos de tragédia anunciada.

Na cozinha, também era um desastre. Até para preparar um simples lanche, antes de estudar para alguma prova, ele arranjava confusão. Nós nunca fomos capazes de explicar à minha mãe – a quem chamava carinhosamente de "tia" – como o Oscarzinho conseguiu derrubar uma lata de Nescau dentro de uma jarra de suco de laranja. A cor ficou bisonha, mas o gosto agradou aos mais exigentes paladares da nossa turma.

Daquela época de inocência, dentre todas as histórias que envolviam o Oscarzinho, a melhor continua sendo a do fornecedor de gás. É que não havia gás central no condomínio, então, uma vez por mês, o caminhão da companhia distribuidora estacionava na calçada e oferecia um botijão recarregado aos moradores interessados.

Certa vez, a encomenda estava demorando a chegar, pois já fazia quinze minutos que o zelador avisara pelo interfone que o entregador estava subindo. Mamãe pediu ao Oscarzinho para abrir a porta e verificar o porquê do atraso. A poucos metros do nosso apartamento, perto do elevador, o moço uniformizado, suado e ofegante, largara o botijão e sentara-se sobre ele para descansar um pouco. O meu amigo não teve dúvidas, depois de olhar lá fora, botou de novo a cabeça para dentro e gritou na direção da cozinha:

– Peraí, tia... o homem ainda tá enchendo o bujão!

 

Escrito por Alessandro Dogman às 01h47
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27/04/2014


UMA NOITE ALUCINANTE




Confira as fotos do lançamento do meu livro DAS COISAS SIMPLES DA VIDA – E OUTRAS CRÔNICAS, pela Giostri Editora, na Saraiva MegaStore do Shopping Iguatemi, em Florianópolis, na noite de 24/04/2014. CLIQUE AQUI

 

Escrito por Alessandro Dogman às 22h14
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15/04/2014


AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA


Vou confessar a vocês: sempre gostei de escrever, desde pequeno. Os meninos da rua em que eu morava se reuniam para jogar bola, soltar pipa ou andar de bicicleta, e eu ficava em casa, escrevendo, tocando violão ou lendo. Escrevia letras de música, poemas, pequenos contos e até um diário.

Minha mãe, quando lia alguma redação nos meus cadernos de escola, dizia afetuosamente: "Tu levas jeito pra cacete, meu filho". A primeira namorada, que às vezes roubava o meu diário para ver se eu não andava apaixonado por outra, também comentava: "Você leva jeito pra cacete, cachorrinho". E as professoras de Língua Portuguesa, apesar de me considerarem um tanto disperso, elogiavam com frequência: "O senhor leva jeito para cacete, pode acreditar".

Até que me tornei um cacete, pois parecia ser essa a minha vocação.

Claro que joguei bola, soltei pipa e andei de bicicleta. Namorei outras meninas depois da primeira namorada. Entretanto, foi só lá pela oitava série que ganhei a primeira nota dez em Redação. No mesmo ano, o aluno mais desajustado da escola, o Miguel, escreveu e editou um livro. Lembro que, na época, apenas pensei com os meus botões: "Porra". Imediatamente, comecei a desenvolver uma saga que levou todo o segundo grau para chegar ao fim. Era uma história – sobre um piá de onze anos que descobria que tinha um tumor no cérebro e precisava dar um jeito de comer a empregada para não morrer virgem – que não se aplicava nem a crianças nem a adolescentes, portanto, impublicável.

Desiludido com a primeira tentativa fracassada, deixei a literatura de lado e comprei uma guitarra. Foi um período de vacas gordas. E também de vacas magras, altas, baixas, loiras, morenas, mulatas, novas, velhas e japonesas. Sobre dinheiro, não posso dizer nada, mas é certo que músicos ganham mais mulheres do que escritores.

Já na faculdade de Letras, uma adorável professora de Literatura voltou a repetir uma frase que me era familiar: "Você leva jeito, rapazinho". "Pra cacete?", eu perguntei. "Não, não, acho que você dá para cronista". Dessa vez não me deixei influenciar. Nunca dei nem para cronista nem para contista nem para poeta.

Então, o tempo passou. Muito mais tempo do que eu gostaria, aliás. Li bastante e escrevi pouco, até sofrer um espasmo de lucidez – talvez fossem gases, não tenho certeza – e ganhar novo ânimo para exercitar esse meu dom: o dom de transformar fatos irrelevantes em entretenimento barato. Acredito, portanto, que é a derradeira chance, agora com o lançamento do meu primeiro livro (aqui), de deixar de ser o cacete que sempre fui e de preservar a integridade das minhas partes peripopéticas, onde o sol não brilha e que só a terra há de comer.


 

Escrito por Alessandro Dogman às 19h52
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08/04/2014


COMUNICAÇÃO


Eu estava de saída para levar a minha gata ao veterinário quando o telefone fixo tocou. Mesmo atrasado e não tendo reconhecido o número no identificador de chamadas, larguei a casinha com a bichana dentro (que a essa altura já esperneava como um Diabo da Tasmânia) e atendi pacientemente, torcendo apenas para que não fosse ninguém da Legião da Boa Vontade.

– Alô!
– É o senhor Dogman que está falando?
– É ele mesmo.
– Aqui é o Nailor, gerente do Banco Descompleto.
– Pois não...
– Estou ligando para avisar que a sua conta está negativa.
– Meu amigo, eu nem tenho conta nesse banco.
– Bem, deve ter havido algum engano...
– Será?
– O senhor tem interesse em ser cliente do Banco Descompleto?
– Mas nem que fosse o último banco do mundo.
– Veja bem...
– Não vejo, não.

Respirei, contei até dez e saí para cumprir a função de pai. Minha única filha (eu sei, é uma gata) acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor nas tetinhas e precisava consultar semanalmente.

Depois de alguns minutos, entre o momento de abrir a portinhola da jaula e a operação para resgatar a felina de cima do trilho da cortina, saí da clínica com uma receita em mãos, na qual o médico recomendava um spray miraculoso para ajudar na cicatrização. O papel timbrado, estampado com o logotipo de um cachorro enrolado num estetoscópio, não deixava dúvidas de que se tratava de uma instituição de saúde estritamente animal.

Entrei, então, na drogaria mais tradicional da cidade, esquina de uma praça velha com um calçadão sujo. Abri a receita sobre o balcão e nem precisei de senha para consultar o farmacêutico.

– Meu jovem, por acaso tens esse remédio?

O rapaz, de jaleco impecavelmente branco, óculos bifocais, maior cara de cê-dê-efe e pinta de recém-formado, analisou o documento, leu e releu o nome do medicamento, coçou o queixo e perguntou, categórico:

– É para o senhor mesmo?

 

Escrito por Alessandro Dogman às 23h55
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04/04/2014


COISAS DE CASAL


Sexta-feira abafada de outono, depois de uma semana daquelas, mais ou menos nove da noite, eu já de pijama, ar-condicionado ligado no modo glacial, apenas esperando o entregador da pizzaria. Ela chega da rua (elétrica, ofegante) e faz a proposta indecente:

– Amorzinho, mais tarde vai ter churrasco do pessoal do meu trabalho, lá na casa da Dandara e do Rajinish, vamos?
– Hummm... o casal de maconheiros?
– Ah, eles só fumam no fim da festa, aí a gente vem embora.
– Sei...
– Só temos que levar cerveja.
– Mas eu nem bebo, pô! Quem mais vai?
– Ah, vão os meus amigos do Face...
– Hummm... aqueles que você nem conhece pessoalmente?
– Pois é, vou conhecer hoje! Os meus primos, o Cecê e o Beto Caroteno, também vão... e a Maria do Socorro, aquela da Igreja do Evangelho Disforme, também disse que vai.
– Hummm... não foi essa que deu pro seu ex-namorado?
– Ah, são águas passadas, amorzinho, agora eu tô com você... vamos?
– Faz assim, benzinho: você pega o nosso carro, vai lá, faz um social, come, bebe e volta na hora que você quiser, enquanto eu fico aqui vendo Mirassol e Catanduvense pela Rede Vida, que tal?
– Ah, se você não for eu não vou.
– Vai, sim... você se diverte lá com as filhas da Baby Consuelo e o Exército de Brancaleone que eu me divirto aqui tomando Nescauzinho com pizza.
– Mas, amorzinho...

Por sorte, toca a campainha. Levanto do sofá em busca das minhas Havaianas e do dinheiro para a encomenda. Pego a caixa sextavada gigante e, antes de mesmo de eu abri-la, ela faz cara de choro e (agora bem menos entusiasmada) resmunga baixinho:

– Quais são os sabores?
– Meia atum acebolado, meia coração de frango.
– Você não pediu de rúcula com tomate seco?
– Hummm... não.
– Ah, eu sabia que isso ia acontecer um dia...
– Isso o quê?
– Você não me ama mais.

 

Escrito por Alessandro às 02h12
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29/03/2014


O ILUMINADO


Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão. Muito trabalho sem diversão faz do Dogman um bobão.

 

Escrito por Alessandro às 18h19
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19/03/2014


TRÊSCRÔNICASCOLADAS


De manhã cedo, o beijo no rosto. "Tá na hora, meu nego... vai trabalhar, vai." Irene sai apressada e negro Inácio vira-se na cama, cheio de amor no coração. Ainda dá uma afofada no travesseiro antes de voltar a dormir. Lá fora, ela desliza suave morro abaixo. Cadeiras pra lá, cadeiras pra cá, sorrindo aos que só vão descer a ladeira mais tarde. "Bom dia, dona Carminha!" "Bom dia, Irene! Como é que vai o Inácio?" Logo adiante: "Sai pra lá, menino traquinas!" "Desculpa, dona Irene, foi sem querer..." E segue seu caminho de todos os dias. A primeira a sair, a última a chegar, com a disposição e a beleza que Deus lhe deu. Os dentes abre-alas muito brancos. No pé do morro, a avenida. Irene toma o ônibus. Quarenta minutos de viagem até a casa do prefeito. Eita, negra importante: dona da cozinha e a quem os dois filhos de madame Elvira, a primeira-dama, chamam de mãe. Estaciona o lotação. "Vai saltar, seu cobrador, vai saltar!" Desembarca Irene, meiga. Distraída em manhã de sol. A cabeça no meio-fio.

Foi abordado por uma cigana na principal praça da cidade. Com carregado sotaque paraguaio, exalando discreto bafo de cachaça, a mulher pediu-lhe uma nota de dez reais, justificando que em papel-moeda a sorte se apresentava mais claramente, e que ela não ficaria com o dinheiro, apenas o usaria como instrumento de trabalho. Em grave crise profissional e amorosa, ele abriu a carteira e ofereceu uma cédula para o sacrifício. A velha zíngara respirou fundo, puxou todo o ar que conseguiu e, num frêmito expectorante, rosnando alto, cuspiu na nota novinha, recentemente saída do caixa eletrônico. Com a ponta dos dedos, remexeu o catarro disforme e volumoso, até desenhar uma rosa-dos-ventos. Durante cinco minutos, a enrugada vidente falou do passado e do futuro de seu cliente, sem que ele prestasse atenção a nenhuma palavra, devido a um embrulho no estômago, seguido de leve tontura. Chegado o fim da consulta, a escatológica senhora lhe devolveu o dinheiro, como havia prometido. Ele segurou a nota – agora úmida e fedorenta – por uma das pontas e seguiu atordoado, cambaleando rumo ao interior da praça. Longe, pouco antes de vomitar no canteiro de amores-perfeitos, ainda pode ouvir a voz esganiçada da matusalênica cigana, que dizia impropérios e lhe rogava pragas num idioma muito suspeito.

Chico Peixeiro, pacato cidadão de Miracema do Norte, gastara com gosto todo o décimo terceiro salário no único meretrício do município. Tarde da noite, bêbado feito um guaxinim e jogando futebol com uma bola imaginária, acabou dando uma topada no paralelepípedo da calçada de casa. "Caralho!" "Hehe, bem feito!", tirou sarro a patroa, empunhando um rolo de macarrão. "Vai-te à merda, coisa medonha!" Chico estava puto com uma sua teúda e manteúda, que trocara o segredo da fechadura da palhoça onde se encontravam, além de tê-lo trocado por um conhecido caminhoneiro chamado Arlindo Orlando. "Quem manda eu me meter com fã de música baiana", pensou alto. Quando ia entrando pelo portão, já imaginando a cama quentinha, foi surpreendido pela esposa com uma crauletada no meio da testa. Caiu por cima das flores do jardim, as mesmas que plantaram juntos logo depois da lua de mel. O sangue espirrou até em suas alpargatas novinhas. Não muito longe dali, os agentes Carmichael e Inojoza nada notaram.

 

Escrito por Alessandro às 03h03
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11/03/2014


CINQUENTA POR CENTO


Envelhecia só do lado esquerdo. Começara a notar no seu aniversário de trinta e três anos, há algumas semanas. Primeiro foram as rugas nas costas da mão e, em seguida, a artrite reumatoide, que passara a entortar as articulações de seus dedos. Avaliando-se em frente ao espelho, percebia claramente a flacidez da pele do braço esquerdo, que balançava por qualquer mínimo movimento, enquanto a do direito permanecia firme e tonificada. Com os dedos destros, lisos e macios, tocava o plano sagital oposto, e arrepiava-se ao sentir o contraste de texturas.

Os cabelos embranqueceram em um único hemisfério de sua cabeça. O olho esquerdo agora estava caído, emoldurado por pés de galinha, e a vista tornara-se turva. Abusou da visão do outro olho até onde pode, pouco antes de adquirir um monóculo. Uma orelha crescera mais do que a outra e tinha também mais pelos. O peitoral ficara mais baixo, a cintura apresentava mais dobras e a perna canhota afinara, quase como uma atrofia, apesar de ambas as coxas e panturrilhas receberem a mesma carga de exercícios na academia do condomínio.

Sentia que o ar penetrava com menos dificuldade pela narina direita. A chiadeira, no entanto, vinha do pulmão esquerdo. Já não mastigava daquele lado da boca, pois seus dentes amoleceram. E havia o desconforto na planta do pé, com a qual não podia pisar sem contorcer-se de dor. Somente o pau não envelhecera. Não é segredo que o órgão genital masculino não sofre com a idade, que permanece com a mesma aparência desde a juventude. Em contrapartida, suas ereções eram breves, porque apenas metade do sangue alcançava o corpo cavernoso.


Ambivalent Indignation (Rieko Fujinami, 2012)

Nas ocasiões em que era imprescindível sair, usava calça, manga comprida e boné. Valeu-se de uma licença-prêmio para não precisar voltar tão cedo à repartição pública onde trabalhava. Quando a situação lhe pareceu insustentável, consultou um geriatra, que confessou jamais ter visto caso semelhante. Nos exames de urgência: um coração fraco, um rim comprometido, parte do fígado deteriorada, o joelho esquerdo desgastado e a surdez em um ouvido. Destro, usou a mão boa para cumprimentar o médico e nunca mais contestar seu destino.

Até que morreu. Metade dele morreu. Tinha um lado do corpo absolutamente inerte e outro cheio de viço. Acostumou-se a olhar no espelho e apegar-se somente ao brilho no olho direito, à boa audição, aos cabelos muito escuros, aos músculos do braço, do peito e da coxa que sobraram. Podia controlar a fala e o raciocínio lógico, o que lhe parecia suficiente, ainda que a memória falhasse com frequência. A cada espasmo de consciência, lamentava não ter vivido plenamente enquanto podia. Dali em diante, apesar de tudo, sabia que nada seria diferente.

 

Escrito por Alessandro às 12h48
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08/03/2014


MACHOS DE RESPEITO


Eu tenho sentido falta de homem ultimamente. Não daquela coisa peluda, ignorante, egocêntrica, quadrada e malvestida da qual as mulheres gostam normalmente, mas de um brother, de um chapa, de um camarada, de um amigo do peito.

É que mulher demais às vezes enjoa. Mãe, irmã, namorada, faxineira, secretária, avó, tia, vizinha, prima, caixa de supermercado, atendente de lotérica, professora, aluna, gostosa do prédio da frente: é estrogênio demais na vida de um homem.

Mesmo não sendo gay e tendo pavor, desde pequeno, de dar mais que um aperto de mão em alguém do mesmo sexo, sinto uma necessidade absurda (não por muito tempo, é verdade) de discutir futebol, de falar palavrão, de menosprezar as loiras, de arrotar no meio de uma frase, de ouvir uma piada suja, de gargalhar até chorar, de jogar sinuca, de emprestar Playboy, de jurar que a filha do chefe está no papo.

De vez em quando eu gosto de homem porque homem não põe a culpa de tudo no ciclo menstrual (nem na barba por fazer ou na cueca surrada). Homem não tem ciúme de fatos passados nem, muito menos, de fatos futuros; não se importa se você come fritura todo dia ou se bebe até cair; não responde com um tratado a uma pergunta que só precisaria de um "beleza" ou de um "é isso aí" para encerrar o assunto.

Mulher é bom, muito bom, claro, eu adoro as fêmeas de forma geral. Tanto que, quando dedico muito tempo a uma única mulher, fico com a incômoda sensação de estar traindo todas as outras. Mas é que discutir a relação cansa, greve de sexo cansa, levar o casaco cansa, escutar Lenine e Jorge Vercillo cansa, mijar sentado cansa.

Por isso, eventualmente, eu saio por aí atrás de homem, sem nenhum pudor, apenas para me certificar de que o mundo ainda é simples e de que as coisas sempre ficam mais complicadas sob a ótica feminina.

Depois passo na floricultura, decoro um poema e ainda chego em casa bem na hora de ajudar o amor da minha vida (que é do sexo oposto) a abrir o vidro de palmito, entre o final da novela e o paredão de mais um reality show.


Em: "Das Coisas Simples da Vida" (Giostri, 2014)

 

Escrito por Alessandro às 16h53
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Perfil



Escritor e filósofo
contemporâneo.

dogman@uol.com.br

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